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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Suas idéias tomaram um rumo desconhecido. Ele que tinha consumido toda a mocidade em uma vida aventureira e vagabunda, e se isolara inteiramente no mundo, sem outra companhia, além dos parceiros de jogo e prazer, sentiu de repente penetra-lo um eflúvio da vida calma, sossegada, que desliza docemente no lar doméstico, entre as alegrias íntimas e as festas singelas da família. 

  Mas já estava adiantado em anos para tratar agora de criar uma família. Seria como o tardo lavrador que planta a árvore da qual não verá o fruto. O que lhe servia era uma família já formada, com seu macio conchego, seus hábitos encantadores, onde ele chegasse e tomasse o seu canto, como um conviva, que acha na mesa do banquete o talher preparado. 

  E não estava ali, perto dele, a família de que precisava? Onde encontraria mulher mais agradável? Podia nunca esperar que viesse a ter outros filhos mais lindos e prendados do que esse par gentil? 

  Por estranhos que pareçam estes pensamentos, de tal modo se imbuíram no espírito do Ribeiro, que ele acabou rindo-se de seu primeiro projeto. Matar apenas Luís Galvão numa emboscada, como pretendia, era uma vingança brutal e estéril que afagava o seu ódio e nada mais. 

  Fazer porém desaparecer o fazendeiro, e tomar o seu lugar, como fizera ele outrora; essa era uma desforra de mestre, que não só ajustava as contas do passado, como garantia o futuro. Aplicando ao sedutor a pena de talião, fazia ele, Ribeiro, ainda por cima um bom negócio. 

  Desde então empregou toda sua atividade em levar ao cabo a obra, cuja realização fora marcada para a noite de São João. 

  Ao recolher, se manifestará no canavial das Palmas um incêndio que se há de atribuir a algum foguete desgarrado. Luís Galvão naturalmente acudirá para acautelar maior estrago. Nem os escravos da roça, fechados nos quartéis por Monjolo, nem os pajens trancados por artes do Faustino, poderão acompanhar o senhor. 

  Gonçalo Pinta, emboscado no caminho, derrubará Luís Galvão com uma cacetada e o lançará nas chamas, para acreditar-se que foi vítima do incêndio, e não de uma trama pérfida e covarde. 

  Então Ribeiro ou Barroso, que figura passar casualmente pela estrada, acode e extinguindo com o auxílio dos camaradas o incêndio, já de antemão cortado por largo aceiro, conduzirá o corpo do Galvão à casa e oferecerá à viúva seus serviços. 

  Eis o plano, em virtude do qual esperava Barroso estar casado com D. Ermelinda e senhor das Palmas, antes de findo o ano do luto. 

Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as últimas recomendações, voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro, de dentro do mato, Jão Fera. 

  O Barroso vacilou na sela; e o Gonçalo Suçuarana ficou ainda mais rajado, com a palidez que lhe afulou o semblante. Todavia não fizera o Bugre o menor gesto de ameaça; apenas lhes tomara a frente, postando-se no meio do caminho. 

- É hoje véspera de São João. Seu dinheiro aqui está; não lhe devo mais nada.   Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo ao Barroso um maço de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mão bamba. 

- Agora passe bem. Havemos de encontrar-nos! continuou o Bugre, cujo olhar despediu uma chispa. 

  E desapareceu. 

 

VII 

Fascinação

 

Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda veio ter com ela: 

- Onde vai? 

- Ali, já volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sôfrega por evitar conversa naquele instante. 

- Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera. 

  Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um braço, e impediu assim que ela se afastasse. 

- Olhem a curiosa! Zangou-se porque não lhe disse onde vou? Ah! Quer saber? 

(continua...)

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