Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

O visconde hesitou um momento, calculando uma última vez as probabilidades da especulação. Ricardo, mantendo com esforço a calma de um frio desprezo, desviava com desgosto o olhar da fisionomia grosseira e astuta do usurário:

- Pois, meu amigo, eu forneço todo o dinheiro necessário para o nosso negocinho... Já sabe, com a condição de tirar a minha fatia do bolo. Que diz? Vamos ao ajuste; sempre é bom. 

- Creio que terminou a sua proposta? perguntou Ricardo com a voz contida. Cabe-me agora responder.

- Sem dúvida. 

- Não tenho pretensões à filha do Sr. Soares; nem existe entre nós mais do que relações do acaso, que vão como vêm. Enganou-se, pois, Sr. visconde; não é a mim que devia dirigir-se, para a sua especulação. Deu o aljuba um saltinho na cadeira. 

- Ahn! Não quer? Percebo a embroma. Fia-se na rapariga? Olhe lá, não se arrependa... 

- Queira poupar-me à necessidade de dar-lhe a resposta que merecia sua proposição; mas o senhor força-me...

- Isso de mulher, não há que fiar, insistiu o visconde receoso de que lhe escapasse a pechincha. Então aquela que é o diabo de saia, ou o pai, o Soares, que tudo é um. Aposto que já o engazopou... 

Ergueu-se Ricardo afinal ao impulso da indignação que por muito tempo recalcara; abotoou o visconde pela gola do casaco, e arrastou-o até a porta da rua. 

Executada esta expulsão em silêncio, apenas interrompido por algumas interjeições do visconde, Ricardo, vendo que lhe ficara sobre a mesa o chapéu do miserável, atirou-lho do alto da escada. 

Só então reparou ele na presença de Fábio, que se ocultara na janela para deixá-lo passar com o visconde a reboque. 

- Ouviste? 

- Tudo! O sujeito esteve impagável! 

- E sabes quem é o culpado do que acontece? 

- Sou eu, se te parece!... Ora, pois, arranja-me daí já um processo. Servirá para praticares no crime. Código, artigo 264. Mete-me nessa tarrafa policial! Anda; um estelionato, de cumplicidade com o visconde! 

- Não estou de veias para gracejos. Conversemos seriamente, Fábio. Desde ontem que desejo esta ocasião. 

- És difícil de contentar. Queres coisa ainda mais grave do que o Código Criminal e um bom processo de estelionato? Sem atender às facéias do amigo, Ricardo continuou: 

- São estas as conseqüências do passo errado que me obrigaste a dar, indo à casa do Soares. 

- Com esta lógica sou capaz de Ter provar que, se não viesses de São Paulo, não estarias aqui; e portanto o visconde não te pilhava. 

- Se todo o mal recaísse unicamente sobre mim!... Porém a minha pobre irmã Luísa também tem o seu quinhão. Mal sabe ela que as suas meigas saudades andam aqui desfolhadas ao vento do prazer, e quem sabe se já não calcadas aos pés de alguma falsa deidade! 

- Meu caro Ricardo, estás hoje tétrico, como o Saião Lobato na Câmara. Aparece-te de repente o Vasques, disfarçado em visconde, para representar uma cena cômica, e tu em vez de dares boas gargalhadas e te divertires à custa do velho ginja, tomas o caso ao sério, e cais no dramático! Até aí, enfim passe. Na cena da “ejaculação” tocaste o sublime. Farme-ias lembrar o Rossi, se eu o tivesse ouvido. Mas depois de te haveres levantado a essas alturas épicas, desceres assim ao sentimentalismo corriqueiro de um poeta de sala, eis o que eu na minha qualidade de crítico, de amigo, e de futuro irmão, não posso tolerar. 

- Queres fazer o favor de me ouvir? disse Ricardo, atalhando aquela volubilidade jovial, que em outra ocasião o faria rir de boa vontade. 

- Espera; deixa acabar. O patife do visconde é um refinado tratante, um velhaco de tal quilate, que logo ao nascer logrou a natureza fazendo-se homem em vez da ratazana, para que ela o destinara. Mas para ter boas idéias, não há como essa gente. Aproveita a que ele te deu, que é excelente, e logra-o... 

- Fábio! exclamou Ricardo com severidade. 

- Que maior prazer pode ter um homem honesto do que o de “flambar” um velhaco?... Pensa nisso, que aproveitas mais o tempo do que lendo o farelório do Lobão. Até logo! 

Ditas estas palavras, o peralta do rapaz ganhou a porta da escada, e desapareceu. 

 

XXIII 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6566676869...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →