Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Abre!
– Perdoai-me... mas esta noite não posso obedecer-vos.
– Abre, Cândido! exclamou a velha; abre em nome da mulher que te concebeu... abre em nome de tua mãe.
O mancebo pareceu hesitar ainda: mas logo depois deu volta à chave, e a porta abriu-se.
– Acertastes! disse ele; de hoje avante tudo por minha mãe... tudo... e só por ela.
Irias ficou extática diante de Cândido.
Não era mais aquele moço pálido, melancólico, abatido e fraco: seus olhos brilhavam de ardentes, suas faces estavam rubras, seus lábios às vezes convulsos, havia em todo seu semblante fogo e vivacidade; mas de sua fronte caíam gôtas de suor, e em seu aspecto, e em seus modos notava-se a agitação, e esse excesso de vida que acompanha os febricitantes.
– Que é isto?... que tem?... bradou Irias agarrando-lhe no braço.
– Quereis dizer que nunca me vistes tão belo, não é assim, senhora?...
respondeu o mancebo com um rir convulsivo, que fez estremecer a velha.
– Cândido!...
– Pois então?... não é melhor assim?... não estou mil vezes mais belo com este meu rosto enrubescido, com meus olhares flamejantes, com este ardor e este fogo, em vez de todo aquele gelo antigo? oh! aplaudi-me!... batei palmas!... eu triunfo!...
sou feliz!...
Uma risada nervosa terminou a delirante exclamação de Cândido.
A velha, que tinha entre as suas segura a mão do seu filho adotivo, disse com força:
– Tu não estás bom... tens febre; eu vou chamar um médico.
De um salto colocou-se o moço diante da porta, e respondeu:
– Aqui não entrará mais ninguém esta noite: para que um médico?... o que é um médico?... é o homem da vida, é o homem que deve esforçar-se para prolongar o mais possível a nossa existência, é o inimigo da morte; pois então para longe!... a vida é somente uma longa cadeia de tormentos: suas duas únicas realidades a definem com um gemido; porque o homem geme quando nasce, e geme quando morre; portanto aquele que tem por ofício estender esse longo aparelho de torturas, é um tirano. O médico é um homem mau... nada de médico!
– Meu filho!...
– Não! não! eu não sou vosso filho, sabeis?... não quero que me chameis por esse nome... é um direito sagrado que usurpais! devo-vos muito, não é isso?... pois bem, tomai todo meu sangue... ou melhor, sede a senhora de meus dias: trabalharei enquanto viver para vos sustentar; serei vosso escravo, e ainda assim morrerei confessando que vos fico devendo muito; mas ah! não me chameis vosso filho! de hoje avante está isso decidido... não me chameis vosso filho!
A velha começou a chorar. Cândido, que passeava a largos passos por toda a extensão de seu quarto, escutou enfim um soluço da pobre Irias; correu para ela, e achou-a sentada em seu leito, desfazendo-se em lágrimas.
– Vós chorais?... perguntou ele; que querem dizer essas lágrimas?... não confessei já que vos devia tudo?
– Oh! não! vós não me deveis nada, respondeu a mísera velha.
A voz de Irias trazia o acento de tamanha dor, que abriu o coração do mancebo a seus naturais sentimentos. Esquecendo de súbito os tormentos que o faziam desarrazoar, caiu aos pés da velha, e de joelhos, abraçado com eles, exclamou:
– Perdão! mil vezes perdão, se vos ofendi! amaldiçoada esteja a minha alma, fechadas lhe sejam as portas do céu, senhora, se uma só vez concebeu uma só idéia que pudesse ser inspirada pela ingratidão a vossos benefícios. Vós tendes sido tudo para mim! em vosso seio eu bebi o leite da vida... fostes quem ganhou o meu primeiro sorriso infantil! vós éreis pobre, não tínheis senão um pão, e me destes metade desse pão! e me destes vosso coração todo inteiro!... perdoai-me! perdoaime!... que hoje depois de tanto sofrer seria demais para mim a convicção de ter movido vossas lágrimas! perdoai-me!...
A velha e o moço abraçaram-se apertadamente, misturando o pranto que derramavam ambos.
As lágrimas pareceram abrandar um pouco a excitação de Cândido: ele ficou, durante algum tempo, silencioso e pensativo diante de Irias, que não pronunciava uma só palavra, medrosa talvez de ver renovar-se o desespero de seu filho adotivo.
Finalmente foi Cândido quem rompeu o silêncio, dizendo tristemente:
– Eu me lembro do que disse: pedi que não me chamásseis vosso filho.
– Não falemos mais nisso.
– Ao contrário, devemos falar; pois eu... eu que não quero deixar em vosso coração a mais leve dúvida a respeito de meus sentimentos, pedi que me não chamásseis vosso filho... foi um desvario produzido por minha exaltação: eu vos ofendi, porque não estava em mim; um remorso, que me tortura, fez-me delirar.
– Um remorso!...
– O remorso de uma grande falta que eu cometi, e da qual já comecei a receber o castigo.
– Como?... quando?... perguntou Irias.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.