Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
É que eu ouvi uma voz bem suave!...
— E, portanto, esqueceu-se da tempestade?...
— Porque desde então, senhores, todos os meus sentidos... toda a minha alma se passou para meus ouvidos
— Pois então, disse Hugo, escuta de novo, meu pescador!
O canto soou talvez mais docemente ainda; porque a voz de Honorina estava levemente trêmula do medo que sentia do temporal que se aproximava.
Mas ela não pôde acabar...
Um relâmpago deslumbrador pareceu abrir uma fenda de fogo horrível no horizonte; um trovão medonho estalante rebentou terrivelmente, e um tufão desesperado rugiu sobre o mar, que se levantou encapelado e bravo...
Um grito geral prorrompeu de dentro dos três batéis...
Ao já fraco clarão da lua sucedeu a mais completa escuridade: a dois passos ninguém podia ver um companheiro.
O batel em que ia Honorina ficou cheio de água. Ouvindo a custo os gritos de Hugo, de Félix e das duas moças, os outros dois batéis, e a canoa do pescador, acudiram prontamente: aquele em que vinha Otávio foi o primeiro que se encostou ao de Hugo, que, tomando sua filha nos braços, inclinou-se para depô-la no batel que os socorrera; mas neste momento a borrasca rugiu de novo... o fuzil... o trovão... o raio!... os batéis, cedendo à força das vagas que cavavam sumidouros debaixo deles, afastaram-se, jogando terrível e desordenadamente... Hugo caiu sobre os bancos dos remeiros, e Honorina, escapando de seus braços, desapareceu no abismo do mar... Um novo grito horrível... desesperado... arrancado das entranhas se ouviu, apesar da tempestade, sair do triste batel...
Félix agarrou pela cintura a Hugo, que se queria lançar ao meio das ondas...
Sentiu-se o baque de um corpo que caía na água...
Tudo isso foi obra de um rápido instante.
No auge da maior dor, do mais cruel desespero, entre mil idéias sem ordem, sem nexo, tudo se perguntando e nada se fazendo, a companhia ainda há pouco tão alegre, e tão aflita agora, deixava perder momentos de valor inqualificável... Mas um brado de vida se levantou na praia.
— Salva!... salva!... salva!...
Oh!... quando se diz a um pai, que crê sua filha já morta — salva!... salva!... tua filha está salva!... — tem-se como uma voz de anjo... como um poder de providência...
Salva!... exclamou Hugo; à praia!... à praia!...
E os batéis atiraram-se para a praia.
Tinham-se passado apenas breves minutos depois da fatal catástrofe!
Com efeito, Honorina tinha sido arrancada do seio das ondas.
O velho pescador apenas ouviu o grito de Hugo, atirou-se na água; desgraçadamente esteve a ponto de sucumbir, pois que um dos batéis foi em seu tempestuoso jogo de encontro a ele, no instante mesmo em que acabava de cair no mar.
Depois...
É, enfim, e de uma vez para sempre, necessário convir que o dedo de Deus guia continuadamente o homem na prática das boas ações.
O velho mergulhou... e a Providência Divina fez com que sua mão tocasse o corpo de uma mulher; então ele nadou para terra com o seu precioso fardo.
Honorina devia a vida a esse homem, e também à sua própria organização.
O mesmo fenômeno, que sem ter por muitas vezes observado em idênticas circunstâncias, naqueles em quem predomina o sistema nervoso, sucedeu à moça: no momento da submersão, foi presa de uma síncope, e caiu no fundo do mar.
Houve então um homem eminentemente bravo que soube, arriscando a própria vida, salvar a filha de Hugo de Mendonça.
Quando o velho pescador surgiu no meio das vagas, trazendo a moça em seus braços, os espectadores levantaram seu brado de alegria e correram a prestar à cena a luz de velas e fachos, de que já se tinham munido.
Depondo o corpo da jovem na areia, o velho curvou-se, como para observar seu semblante, e, erguendo logo depois as mãos para o céu, com indizível expressão de ventura, exclamou:
— Era ela!
Palavras cheias de nobreza, de generosidade e grandeza de alma; porque provavam que esse homem se arrojara ao mar para salvar uma vítima qualquer... uma vítima que ele não sabia quem era.
— Vive!... vive!... ela ainda vive!... bradava o pescador, sentindo que Honorina começava a reanimar-se.
— Mas o senhor feriu-se?... perguntou um dos espectadores.
— Eu?... ferido... que importa?... respondeu o velho.
E pela primeira vez lembrando-se de si, ele viu seus vestidos cobertos de sangue, que abundantemente lhe corria da cabeça.
Nesse momento os três batéis chegaram à praia.
Mas, ao senti-los arrastar o bojo pela areia, o velho afastou com força os espectadores que o cercavam, abriu passagem por entre eles, e, correndo, desapareceu.
— Salva!... exclamou Hugo caindo sobre sua filha.
— E quem a salvou?... quem a salvou?...
— Um velho...
— O velho pescador...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.