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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

— Ora! Às dúzias... Uma vez, no baile do ministro dos Estrangeiros, no palácio da Plaza de la Concepción...

E Rolim voltava a sonhar aquele paraíso diplomático, cheio de mesuras e cumprimentos, de etiquetas complicadas, mas cheio também de huris de luxo e tratamento.

Em começo, logo após a mutação do jornal, o lindo repórter pedira um lugar na diplomacia ou no corpo consular; mas o ministro convencera o diretor que era desmarcado o pedido. Prometera-lhe o ministro um lugar de amanuense na Secretaria do Estado, para o seu repórter; e depois, com o tempo, talvez fosse possível transferi-lo para o corpo consular. Rolim não quisera. Temia que a sua ignorância fosse posta a claro na redação dos ofícios. Para ele, só serviam os lugares de chefe, de diretor, em que só se tem que ter presença e assinar papéis. Foi então que vagou o cargo de subdiretor da Repartição Cartográfica e foi nomeado, para superintender os respectivos trabalhos geodésicos, que de há muito estavam em começo.

Meneses, tímido sempre, não se animava a pedir coisa alguma. Continuava obscuramente, pacientemente, a estudar, a ler, e a contribuir para a glória e para a fortuna do doutor Loberant. Surdo, falando com dificuldade, muito feio, pouco conversava na redação; mas eram constantes as perguntas de uns e de outros sobre isso e sobre aquilo. Ele respondia com a sua voz fanhosa e retomava o serviço com resignação, automaticamente, e assim enchia os dias e os anos.

Aires d'Ávila e Oliveira não tinham querido emprego. Ao primeiro, a não ser de presidente da República ou diretor do Banco do Brasil, não havia colocação que pudesse custear os seus gastos. O que ganhava no jornal era insuficiente para as passagens e os charutos; o resto ele arranjava. Devia a todo o mundo e os credores quase formavam cauda na redação. Era uma mania. A uns dizia: “Procure-me em casa”; a outros ralhava: “Aqui não lhe posso atender, estou escrevendo... Procure-me no escritório”. Ao que o cobrador retrucava: “Mas Vossa Excelência já me disse que só aqui”. — “É — respondia — Mas... Bem... É melhor você vir para a semana”...

E continuava a fumar serenamente enquanto o cobrador descia cabisbaixo, mastigando juras. Não havia expediente de que não lançasse mão para conseguir dinheiro. Todos lhe serviam, desde os honestos até aos semi-honestos. Tinha para as suas transações caixeiros e escreventes. Laje da Silva era um deles. Na transação dos quadros que ficou célebre, outros entraram e ganharam uma boa fatia. Não sei se se lembram ainda do caso. Eu recordo. Certo dia, um jornal de Pernambuco noticiou que se havia descoberto numa cidade do interior duas grandes telas que bem podiam ser de célebres mestres holandeses ou flamengos. E lá vinha a historia do domínio batavo no Norte, de Maurício de Nassau, etc. Em breve, os tais quadros eram expostos no Rio de Janeiro e as competências começaram a falar, gabando a beleza extraordinária dos trabalhos. Não havia dia em que este ou aquele jornal, esta ou aquela revista não se referisse com grandes encômios aos quadros. Os competentes deram-nos como sendo de Rembrandt e J. Van Eyck. Na tela que se atribuía a este, havia mesmo uma certa beleza comunicativa, independente de qualquer exame ou cultura. Representava uma grande dama adorando um Menino Jesus e o fundo era uma paisagem de montanhas cobertas de neve, tratado com aquele desenho correto, firme e aquela sábia perspectiva aérea que tanto lhe gabam os críticos. Raul Gusmão escreveu um cintilante artigo; Veiga Filho desarrumou dicionários, escreveu um folhetim maciço. Os escritos choviam, mas o que causou surpresa foi também o assunto merecer da pena política de Aires d'Ávila um artigo entusiástico, confessando não entender de arte, mas louvando-se nas suas impressões e nas opiniões dos competentes. Terminava pedindo ao Governo que adquirisse as telas. A sua idéia foi logo bem aceita e os tambores jornalísticos começaram a rufar. O ministro do interior consultou a Escola de Belas Artes, que achou as telas obras-primas e dignas de serem adquiridas. O Congresso votou o crédito e as telas foram compradas por perto de mil contos. Não passaram, porém, três meses que um jornal de Paris as não denunciasse como falsificadas e apontasse o falsificador. Um outro jornal do Rio foi além: denunciou o sindicato que tudo preparara e fizera a campanha para que o Estado adquirisse os quadros. O jornal, entre outras pessoas, apontou Aires d'Ávila como tendo entrado no negócio e recebido trinta contos no Banco inglês, com o cheque n° 5327.

O esteta entusiástico deixou passar a tempestade e, serenada que ela foi, veio calmamente dizer que, de fato, recebera o dinheiro, mas tão somente como advogado, para fazer minutas de requerimentos, dar conselhos e outros pequenos serviços da profissão.

Quem ganhava tanto com minutas de requerimentos, não precisava sujeitar-se a um emprego.

(continua...)

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