Por Lima Barreto (1911)
Morava na mesma casa da Cidade Nova e tinha as mesmas pessoas em sua companhia, exceto Bogoloff que resolvera morar numa pensão do Catete, depois de ter sido feito Diretor da Pecuária.Quisera este obter para Lucrécio um lugar na sua diretoria, mas só os havia de escriturário e Barba-de-Bode não quisera aceitar, por não saber escrever correntemente.
Totonho tinha prometido colocá-lo definitivamente desde que Campelo se firmasse. Era bem possível que o doutor viesse a ser ministro, e, em o sendo, Lucrécio ficaria arranjado de vez. Totonho pedia-lhe que esperasse pacientemente; fosse tenteando com o lugar de “encostado” e ele o fazia fiado nas palavras de Totonho e na estrela do Dr. Campelo.
Com o tempo Lucrécio ganhara certa inteligência política. Ele que, a custo, tinha ido até a tabuada, ficou sabendo muito da difícil arte de governar os povos. Passara muito além a sua inteligência do capítulo dessa arte que trata das desordens nas eleições e “meeting”, com assassinatos conseqüentes: Lucrécio já compreendia certas manobras da alta estratégia dos deputados.
Lendo a notícia, lobrigou Barba-de-Bode alguma coisa de anormal nela.
Como toda gente, ele estava habituado a considerar Palmeiras como sendo de Macieira, porque cada Estado era de certos e determinados que o presidente dava. Não se dizia até que Bentes tinha dito ao Crescêncio:
—“Doutor, não lhe posso fazer ministro; mas dou-lhe o Sernambi.”
Palmeiras era de Macieira desde muito tempo; Bentes tinha confirmado a doação — como é que agora o presidente que Macieira queria para o Estado podia sofrer contestação. Ele sabia perfeitamente que a propriedade desses homens é sempre disputada. Ninguém lhes disputa a casa, o casaco, as jóias; mas os Estados, há sempre uns galfarros que lhes disputam. A Neves Cogominho era Salustiano; mas o Macieira ele não sabia quem fosse. Conhecia o coronel Contreiras... Era um oficial limpo, alto, severo... Que ele se metesse em política, Lucrécio não sabia. É verdade que Bentes... Mas Bentes! Bentes tinha o exército em peso...
— Não é possível! Não é possível!
E atirou com zanga o jornal para o lado. Apanhou-o ao fim de algum tempo. Leu o tópico de novo e de novo exclamou:
— Não é possível! Não é possível! É intriga!
A mulher, que trabalhava na cozinha, não se conteve e observou lá de dentro.
— Você está doido, Lucrécio!
— Qual doido, Ângela! Qual doido! Você não sabe o que é a política.
— Homem, filho, eu não sei mesmo o que seja e nem quero saber. Se é como essa coisa do Cambuci, fresca história! É mesmo uma vergonha!
— Isso é política do Liberato. A minha política é outra... Você conhece o Doutor Macieira?
— Não.
— Aquele que arranjou o Lúcio na Escola dos Desvalidos.
— Que aconteceu com ele?
— Querem lhe tomar a chefia das Palmeiras.
— Mas ele não é do general?
— É, minha filha; mas tem muitos invejosos... Não falta quem o vá intrigar com o general...
— Eu não dizia, Lucrécio?
— O quê?
— Que esse general não prestava. O que ele fez com o “Velho” não é de homem bom; é de malvado... Ninguém mais pode fiar-se nele... Quem faz um cesto faz um cento - fique você sabendo.
Lucrécio nada respondeu. Deixou pender a cabeça sobre as mãos, apoiados os cotovelos no joelho, e esteve a olhar muito tempo o soalho encardido de sua casa velha.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.