Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Que podia ella esperar ainda?... Todo o futuro de uma moça acha-se exclusivamente ligado ao seu casamento ; mas haveria no mundo um homem não indigno e que fosse bastante generoso para arrancar Juliana do abysmo da vergonha em que tinha cahido, dando-lhe a sua mão e o seu nome ?... e se um homem desses lhe apparecesse, Juliana, ainda mesmo depois de ser sua esposa, não teria decôrar de cada vez que levantasse para elle os olhos?...
Tudo pois estava acabado: nada mais de festas e de alegria, nada mais de adorações de culto, de perspectiva de felicidade, nada mais de sonhos de brlllante futuro; tudo estava acabado : havia só uma realidade terrivel, inevitavel, perpetua : era o opprobrio !...
A moça que sacrifica o seu pundonor e a sua honra torna-se como uma leprosa no meio da sociedade, em que todos lhe voltão as costas.
O mundo era um inferno para Juliana; o mundo rejeitava-a, ou só a aceitaria para impôrlhe um papel ainda mil vezes mais vergonhoso.
A situação era horrível.
E a misera, a misera, a quem uma falsa educação fizera incredula, nem ao menos tinha a doce consolação de voltar os olhos para o céo e de encorajar-se com a fé e com o amor de Deus.
No coração do crente nunca se apaga de todo a esperança; o coração incredulo é um negro abysmo, em cujo fundo mora o demonio do desespero.
Esse demonio começava a fazer-se sentir no coração de Juliana.
A scena repugnante e vergonhosa passada no hotel viera naturalmente redobrar os soffrimentos da pobre victima.
A noticia do próximo casamento de Jorge de Almeida, que ella recebera sem manifestar notavel commoção, porque conseguira com um esforço violento suffocar a mais pungente dôr, esgottára todos os recursos da sua vontade.
O que depois e em seguida se passara, abateua, aviltou-a aos seus próprios olhos de modo a fazel-a considerar-se a ultima das mulheres.
Desde então a infeliz vivia a chorar dia e noite, incessantemente.
Juliana tinha chegado a amar apaixonadamente a Jorge de Almeida, e vendo-se tão ultrajada por elle e já tão repellida pelo mundo, tocara o extremo de aborrecer o mundo e de aborrecer a si propria.
O seu padecer era tão acerbo e tão profundo, havia em seu olhar ás vezes desvairado, em suas palavras ás vezes insensatas, em seus modos ás vezes singulares um não sei que de tão sinistro, que Cândida começou a receiar as mais fataes consequencias.
A infeliz mãi seguia e observava cuidadosa sua filha; desejava consolal-a, não sabia que dizerlhe, e limitava-se a chorar com ella.
Fábio era o único amigo que não tinha desamparado a triste moça; era o companheiro unico que vinha diariamente tomar uma parte naquelle viver de lagrimas, que estavão passando Cândida e Juliana
Fábio era mais do que um mancebo generoso e nobre, era o typo do amigo dedicado ; tinha um coração cheio dessas grandes virtudes que tornão o homem capaz dos maiores sacrificios ou da abnegação mais completa.
E naquellás circumstancias ella não esquecia que o pai de Juliana fôra o seu protector desvelado, que em Cândida achara uma segunda mãi, que Juliana era a sua amiga da infancia.
E ainda mais: Fábio tinha amado extremosaamente Juliana.
O que se passava na alma desse mancebo, ninguém o poderia explicar : era uma lucta horrivel, e um soffrimento que excedia as mais despedaçadoras torturas.
Fábio fingia duvidar do opprobrio de Juliana ; mais acreditava nelle : comprehendia que a situação era intoleravel, e não se podia sujeitar á idéa de ver morrer Juliana, nem de vêl-a carregar o peso de uma vida ignominiosa.
Uma noite, Fábio chegou á casa de Cândida quando já não o esperavão.
Erão 10 horas da noite.
Cândida estava só na sala, e nem procurou esconder as lagrimas que derramava, quando vio aproximar-se omancebo.
— Onde está Juliana?... perguntou elle.
— Está no terraço e pedio-me que a deixas-sa em liberdade.
— Como passou ella o dia ?...
— Peior do que nunca ! exclamou a pobre mãi! Fábio !... aquelle homem matou minha filha; nós vamos perder Juliana !...
— O amor maternal ás vezes exaggera os perigos que receia.
— Oh ! não ! é a pura verdade: esta noite, e já muito tarde, fui observar Juliana... ella tinha adormecido, escrevendo... cheguei-me de manso e li... Ah! tinha escripto a historia dos seus soffrimentos do dia que passara, e as suas ultimas idéas erão uma horrivel saudação ao suicidio !... cahi de joelhos, soltei um grito, accordei-a, e pedi-lhe chorando que vivesse para mim!...
— E ella ?...
— Perguntou-me de que me servia a sua vida!... Oh ! Fábio ! uma filha pôde fazer tal pergunta á sua mãi ?...
— E depois?...
— Acabou promettendo me que não se ma-
taria; mas disse-me isso sorrindo, com um desses sorrisos que só se vêm nos lábios de um louco ! Ah ! ella vai morrer, Fábio ! aquelle homem matou minha filha!
— Aquelle homem casou-se hoje, balbuciou Fábio.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.