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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Custou-me a dar com o escritório. Também foi procurar uma rua tão esquisita. Nada; isto não serve. É preciso arranjarmos quanto antes uma sala aí na rua Direita, ou mesmo na da Quitanda... 

- Ainda não é para mim, e quem sabe se o será algum dia. 

- Ora qual! disse o visconde com seu riso fagoteado e batendo no ombro do moço. Você breve está aí recheado! Veja o que lhe digo. 

Uma das particularidades do visconde era familiarizar-se com as pessoas que tratava a ponto de chamá-las por você desde o primeiro dia. Entendia que o dinheiro lhe dava essa liberdade, como lhe dera a excelência com que o abarrotavam a cada canto. 

Ricardo não gostou do modo achavascado; mas disfarçou. 

- Dito por V. Exª., é um bom agouro. 

- Oh! Eu cá nunca me engano. Sujeito que tem de ser apatacado, eu o descubro logo pela pinta. Olhe o Soares. Foi vêlo, e conhecer logo que aquele patife acabava podre de rico. 

- Então acha-me com jeito de homem apatacado? 

- Tem todos os sinais.

- Quais são eles? 

- Eu cá sei. Mas vamos ao que serve. Para começar, temos aqui uns dois negocinhos... Meu procurador há de passar por cá depois. Trouxe os papéis para explicar-lhe bem a coisa. 

Tirou o visconde do bolso um maço de papéis preso por um elástico, e pô-lo na ponta da mesa. 

- Este é uma escritura de hipoteca dum sujeito que me deve seis contos. A casa há de valer uns vinte; ainda tem uns escravinhos; bem tangida a embroma, como os senhores sabem fazer, podemos passar a mão em tudo. 

- Engana-se; eu não sei fazer desse milagres, disse Ricardo, já não podendo conter o sarcasmo. 

- Ande lá, ande lá! Isto agora é uma letrinha dum rapaz, um peralta que já esbanjou a legítima do pai, e está à espera da herança da mãe. É preciso pôr-lhe em cima o ano do nascimento e andar com a tramóia depressa para arranjar uma sentençazinha, que fique na gaveta bem guardada à espera do bolo. Enquanto o marreco anda na pinga, não olha para estas coisas, nem dá o cavaco, sobretudo caindo eu com uns cobres, que ele anda seco. Mas assim que meter-se na herança, é capaz de vir com histórias de que são falsas as letras, que ele as aceitou quando já estava declarado pródigo, e outras petas. 

- Desculpe-me, Sr. visconde, não posso me encarregar destes negócios, disse Ricardo com fria gravidade, carregando sobre a última palavra. 

- Por que então? 

- Permita-me que reserve para mim os motivos de meu procedimento, tornou Ricardo no mesmo tom. 

- Ora já sei! É sobre isso mesmo que eu vinha falar-lhe; mas precisava antes de apalpar o terreno... Compreende, heim! 

Foi Ricardo quem dessa vez ficou surpreso do desembaraço do usurário. 

- A coisa está bem encaminhada! Você é um finório! continuou o visconde apertando o joelho de Ricardo. Mas, olho vivo, que anda uma súcia de galfarros à cola da rapariga. Então o Nogueira e o Bastos? Dois velhacos de marca. Deixe-os por minha conta, que os conheço; têm de haver-se com um macaco velho. Lá o Guimarães não mete medo, é um pateta. 

- Explique-se melhor, Sr. visconde, eu não o entendo. 

- Faça-se de inocente! Ah! managão?! Quem não sabe que a rapariga está pelo beiço! Você é um ladrão feliz! 

- De que rapariga me fala o senhor? 

- Ora de quem há de ser senão da Guida, a filha do tratante do Soares? Domingo na Tijuca, todos conheceram como ela se derretia... E tinha razão! Olé se tinha. 

- Não admito gracejos a este respeito, Sr. visconde. 

- E esta! Não costumo gracejar com os negócios. 

- Então é um negócio que o senhor veio propor-me... 

- E que negócio!... Magnífico!... Olhe; um namoro com uma rapariga como a Guida, custa caro! Eu conheço aquela sujeitinha! Está acostumada a atirar fora as notas do banco como se fossem papéis de bala! Além disso há de ser preciso sustentar por muito tempo, um ano seguramente, a tamóia, o que fica um tanto salgadete. 

(continua...)

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