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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Terminada esta operação, que não consumira com a luta precedente mais de minutos, Arnaldo veio postar-se no mesmo lugar que anteriormente ocupava na chapada da colina, e donde continuou a observar a corrida que os cavaleiros davam no Dourado. 

No momento em que o capitão-mór partira com os outros campeadores, Arnaldo não se influira. Como dissera a Alina, êle não gostava daquelas correrias em que os homens assaltavam insidiosamente os touros, tomando-lhes os passos por onde poderiam evadir-se. Parecia-lhe isso pouco generoso. Um bom campeador já tinha demais a rapidez de seu cavalo para pedir ainda auxílio de outros vaqueiros. 

Todavia ficara de observação, porque se o Marcos Fragoso se mostrasse capaz de pegar o Dourado, êle propunha-se a arrebatar-lhe a satisfação dêsse triunfo como já fizera uma vez; e consigo mesmo tinha jurado que as solas daquelas chinelas de que falara o namorado capitão, se êste chegasse a cortá-las, teriam feito a última proeza de sua vida. 

Tornando agora a seu ponto de observação, continuou a acompanhar a corrida; mas já então excitado pelo assalto do sorubim, dava combate a si para permanecer alí imóvel, quando lá estava um boi famoso a desafiar os seus brios de campeador. 

Entretanto a corrida prosseguia com vários acidentes no meio do alarido dos cavaleiros, e do estrépito com que a gente postada pela várzea afugentava o gado acossado que buscava escaparse do circo. 

Logo no princípio o Ourém e o João Correia mostraram que não basta envergar uma roupa de couro para tornar-se vaqueiro. Não eram maus cavaleiros de cidade; mas coisa mui diversa é correr em um campo alagado e coberto de mato, onde de repente falta o solo ao cavalo, e o espaço ao homem. 

Daniel Ferro, êste desempenhara galhardamente as barbas dos vaqueiros de Inhamuns; e o Campelo a-pesar-de sua corpulência não lhe ficava atrás. Quanto ao Agrela, sabia que sua obrigação era ir ao pé do capitão-mór, e assim o acompanharia ao inferno. 

O melhor cavaleiro porém, aquele que ia na frente e com muito avanço, era o Marcos Fragoso. Além de ágil e consumado na arte da equitação, como nas outras próprias dos mancebos nobres de seu tempo, êle montava um soberbo cavalo dos Cratiús, e corria atrás de um troféu para o seu amor. Nem o cavalo, nem êle, careciam de um aguilhão, pois eram briosos ambos; mas o primeiro sentia o roçar da espora, e o segundo passava no remoque do capitão-mór e do desgôsto que sofreria, se não cumprisse o voto feito a D. Flor. 

Quando Arnaldo voltara à colina, Fragoso acreditava que o Dourado não lhe podia escapar. O boi corria frouxamente; e mal guardava entre êle e o cavaleiro a distância de cem passos. Metiase nas moitas que encontrava pelo caminho, como para descansar um momento, e dava todas as mostras de fatigado. 

Era um boi astuto e manhoso, o Dourado. Êle sabia que estava cercado, e embora não tivesse perdido a esperança de escapar-se, contudo receava encontrar por diante homens armados de varas que lhe embargassem o passo. Assim tinha por mais prudente cansar primeiro os cavalos e para isso fingia-se êle estafado, a fim de exercitar os campeadores a apertar a carreira na esperança de o pegar. 

Entretanto, D. Flor aproximara-se de Arnaldo. A donzela, como sua mãe, não tinha agradecido ao mancebo o ato de destreza com que lhe salvara a vida. Era isso um fato natural, e que não lhes granjeara nenhuma gratidão; ambas conheciam a dedicação do filho da Justa, e recebiam dele essas provas de amizade, como as receberiam de um parente, de uma criatura sua. 

A donzela, porém, lembrou-se que Arnaldo conservava um ressentimento dela, desde a noite do mimo, em que talvez fôra injusta; e aproximou-se para com uma palavra meiga e afetuosa aplacar seu ânimo suscetível e ríspido. 

Mas no momento em que chegava a seu lado, Arnaldo arrancando o cardão em um salto, disparava pela colina abaixo, soltando êsse brado pujante, que o sertanejo aprendeu do índio, seu antepassado. 

Êsse brado é como o rugido do rei do deserto; êle tem a fereza do bramir do tigre, e a vibração do rugir do leão; mas quando repercute na solidão sente-se que há nessa voz uma alma que domina a imensidade. 

Que sentimento impelira assim o sertanejo? Fôra o receio de que o Fragoso triunfasse, ou o desejo de subtrair-se ao agradecimento de D. Flor? 

Talvez um e outro motivo. 

 

V – A carreira 

 

Quando o Dourado ouviu o brado de Arnaldo, conheceu que tinha homem em campo; e abrindo então a carreira, em dois corcovos deixou o Fragoso a uma grande distância. 

O mancebo perdera a esperança de agarrar o boi; e atribuindo a derrota ao grito que espantara o animal, irritou-se contra o autor dessa picardia, que no primeiro momento suspeitou provir de seu primo Daniel Ferro. 

Logo, porém, reconheceu o engano. Um cavaleiro passou por êrle à desfilada; e a-pesar-da velocidade da carreira pôde ver o rosto de Arnaldo, que o ódio lhe gravara na memória. 

(continua...)

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