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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– E eu, pelo contrário, respondeu a viúva com seu encantador sorriso, quisera vê-lo no fundo de um horrível abismo para descer até lá, e ir viver debaixo de seus olhos; eu então não tremeria nunca... porque nenhuma mulher quereria descer como eu e esquecer o mundo pelo abismo.

O piano tocou nesse momento os primeiros compassos de uma valsa.

– Chamam-nos! disse Mariana.

– Sim... chamam-nos... mas com suas belas palavras ficou esquecido o fim principal de nossa conversação! Sereia encantadora que o homem não deve ouvir para se não perder!...

– Ah! porém eu compreendi tudo.

– Tudo?... talvez; porém não respondeu nada.

– Eis a minha resposta, disse a viúva.

E oferecendo a Henrique sua mão direita, acrescentou, abaixando os olhos e com voz comovida:

– Ei-la aqui.

O mancebo apertou aquela mão delicada e bela com ardor e entusiasmo, e com os olhos úmidos de lágrimas de prazer, disse:

– Amanhã virei pedi-la a seu pai!

– Venha... eu o espero, respondeu a viúva.

Os dois entraram na sala ébrios de alegria e de amor.

A música viva e animadora de Strauss tinha feito voltar à sala mais alguém, que dela estava ausente.

Pouco tempo depois que Celina havia subido para seu quarto, deu Mariquinhas por falta da amiga, e adivinhando onde a acharia, correu ao segundo andar.

Quando entrou no quarto da “Bela Órfã” não pôde reter um pequeno grito de susto:

Celina estava meio deitada em seu leito, e com o rosto coberto com um lenço chorava tristemente; seus cabelos se haviam desatado e caíam-lhe espalhados sobre o lindo colo.

Escutando o grito de Mariquinhas, tirou o lenço dos olhos, e sentando-se, perguntou agitada:

– Quem é?...

– Sou eu, d. Celina, disse Mariquinhas aproximando-se; sou eu, que te venho perguntar o que querem dizer essas lágrimas.

A “Bela Órfã” passou a mão pela fronte e respondeu tristemente:

– Já te não disse que não estava boa?... é a minha cabeça que sofre.

Mariquinhas olhou para a amiga por algum tempo, e depois tornou-lhe assim:

– Sou alegre, d. Celina, tu me chamas maliciosa. d. Felícia diz que eu sou ligeira, e que não tenho juízo; mas olha, o que eu sei é que sou tua amiga.

– Eu te creio, d. Mariquinhas.

– Pois bem, sabe que compreendo alguma coisa de tua dor... não adivinho tudo, mas alguma coisa eu sei.

– Que queres dizer?

– Que não é a tua cabeça que está sofrendo.

– Então o quê?...

– É o teu coração.

– D. Mariquinhas!

– Basta! por agora nem mais uma palavra. Deixa-me arranjar teus cabelos...

teremos tempo para conversar qualquer destes dias.

– Mas eu...

– Silêncio! enxuga as tuas lágrimas. Que precisão há de que saibam lá embaixo que tu choraste?... sabes?... perguntar-te-iam, ou quereriam adivinhar por quê.

A “Bela Órfã” abaixou a cabeça, e Mariquinhas começou a endireitar-lhe o cabelo.

Quando acabava esse interessante trabalho, soaram embaixo os primeiros compassos da valsa.

– Ouves?... disse Mariquinhas.

– Sim, ouço.

– Pois vamos descer. – Para quê?... – Para dançar

– Eu não dançarei hoje.

– Oh! tornou Mariquinhas; mas é necessário dançar, é necessário rir, é necessário fingir; porque a moça que não finge, sofre muito neste mundo que morde. – Oh! que mundo!...

– Vamos.

– Espera; olha bem para mim; poderão descobrir nos meus olhos que eu estive chorando?...

Mariquinhas olhou de perto para Celina, foi aproximando o rosto, deu-lhe um beijo, e disse:

– Teus olhos brilham... as lágrimas estão no coração. Desceram as duas amigas

Quando, deixando a janela em que haviam conversado, Mariana e Henrique tornavam à sala, Celina e Mariquinhas apareciam também.

Eram dois amores que entravam ao mesmo tempo: o primeiro trazia a esperança nos olhos, e o segundo um tormento no coração.

CAPÍTULO XXIII

CÂNDIDO

NA NOITE dos anos da “Bela Órfã”, foi a velha Irias uma das primeiras pessoas que reparou na ausência de Cândido.

Depois de esperar inutilmente vê-lo entrar de novo na sala, perguntou por ele, e soube com espanto que se havia retirado.

Receando que algum incômodo grande e imprevisto tivesse sobrevindo a seu filho adotivo, despediu-se dos donos da casa, e deixando o “Céu cor-de-rosa” entrou no “Purgatório-trigueiro”.

Subiu ao velho sótão, a porta estava fechada. Bateu em vão primeira, segunda e terceira vez.

Espantada daquele silêncio que no sótão reinava, desenhando-se em sua imaginação já um grande infortúnio, Irias gritou com força:

– Cândido! meu filho!... Cândido!...

Ouviu então os passos de alguém que da porta se aproximava, e Cândido respondeu:

– Ide sossegar, senhora; não tenhais receio algum pelo meu estado... não estou doente.

A voz do mancebo tinha um não sei quê de assustador.

– Abre! disse a velha.

– Amanhã, senhora.

– Abre! eu quero que abras.

– Eu preciso de repouso.

(continua...)

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