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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Honorina pensava sempre no moço loiro.

Vós, que haveis amado mesmo há dez ou vinte anos passados, nunca parastes junto de uma árvore, como procurando o vestígio dos passos, ou o aroma dos vestidos do objeto de vosso amor, que outrora vistes descansando à sombra dela?... vós que amais ainda hoje, não buscastes com os olhos, ao entrar no jardim, o mesmo banco de relva, em que ontem vistes sentada a bela de vossos pensamentos, e não ficastes estático... enlevado com as vistas fitas nele uma hora inteira, como se ela ainda estivesse lá sorrindo-se para as flores, ou adormecida entre elas?...

Pois bem: naquele ponto do mar, onde tem Honorina embebidos os seus olhos, esteve ele... sobre o seu gracioso batel noturno; foi dali que ele respondeu ao hino da virgem; e Honorina pede, sem sentir, ao mar, que lhe mostre um sinal do rosto de seu batel, e às auras, que lhe tragam em suas asas ainda o eco de suas vozes!

Mas é que Hugo não se dava muito bem com cenas mudas, e ainda pior com semblantes melancólicos:

— Então, que é isto? gritou ele, saímos porventura de casa para entristecer-nos? será crível que estejam aqui as senhoras com medo deste mar de leite... ou quem sabe se estão ainda pensando no bateleiro de ontem à noite?

Honorina e Raquel olharam-se ao mesmo tempo... talvez Hugo tivesse, sem querer, compreendido os pensamentos de ambas.

— Vamos! ânimo! não sentem o prazer que reina nos outros dois batelões?... eu pensava que o nosso seria o mais divertido de todos! remadores... à esquerda e com força... avante!...

As duas moças viram-se obrigadas a fazer-se alegres para satisfazer a Hugo, e, desde então, somente começaram a tomar parte no divertimento noturno.

A primeira hora foi toda empregada em correr indistintamente pelo mar: os batelões, ora aproximavam-se, ora fugiam rapidamente da praia... depois todos três emparelhados empenhavam-se em disputar a primazia na rapidez da carreira, e ouviam-se conseqüentemente os aplausos de vitória, dentro do que alcançava o triunfo, e as admoestações e pragas aos remeiros daqueles que eram vencidos.

Enfim, quando já se achavam fastigados ou começavam a sentir-se aborrecidos do passeio, os três batéis reuniram-se, e de acordo comum se foram postar diante dessas belas casas, que situadas ficam entre S. Domingos e a Praia do Gravatá: tratava-se de ouvir cantar a Honorina. Embebidos, enlevados e perdidos na embriaguez de seu prazer, a companhia não notava que a lua se ia turvando, o mar tornando-se crespo e cavado, e que o vento, que refrescava, caía às vezes sobre eles em tufões, que faziam jogar os batéis.

Honorina deixou, pois, ouvir sua voz melodiosa e terna: aquele canto no meio do mar, levado nas asas do vento, perdido no longo espaço, ouvido no silêncio da noite, tinha um não sei quê de místico e poderoso, que cativava as almas!

A praia ficou para logo coberta de curiosos expectadores, que, quando sentiram terminar o hino da virgem, fizeram soar seus aplausos de mistura com aqueles que prorrompiam dos batéis.

E as aclamações não deixaram ouvir bem distintamente o surdo mugido de um trovão longínquo, que, enfezado, bramia; um fuzil se desabriu e fez estremecer Honorina.

— Meu pai, meu pai, veja como fuzila, como o horizonte se tem tornado escuro... oh! minha avó tinha bem razão... vamos desembarcar!

— Não!... não!... disseram os moços, ainda uma vez o hino!... uma segunda vez, minha senhora!

— Sim, Honorina, repete o teu belo hino; que apenas o terminares, desembarcaremos.

— Mas, meu pai, Raquel e eu estamos tremendo!

— Que medo então é esse? não vês que estamos a dois palmos de distância da terra?... canta... canta.

Nesse momento uma pequena canoa, guiada por duas únicas pessoas, aproximou-se dos batelões, e deu fundo.

— Oh! temos companheiros? disse Hugo.

— Quem sabe se será o nosso cantor de ontem?...

— Em todo o caso não faz mal reconhecê-lo, disse Otávio; remadores... para junto daquela canoa...

— Remadores, repetiu Manduca no batel em que estava, para junto daquela canoa... — Mas o que eu não sei, murmurou Brás-mimoso, é o que temos nós de ir entender com quem está quieto.

— Oh! Sr. Brás! até disto tem medo?...

— Quem?... eu?... medo?... as senhoras ainda me não conhecem a fundo.

No entanto, os batéis tinham chegado até encostar-se à canoa; Otávio e Manduca puseram-se a examiná-la em pé sobre a borda de seus batelões, e todos os outros fitaram os olhos dentro dela. Estavam lá duas únicas pessoas: um velho pobremente vestido, e com a cabeça toda branca, e um negro, que era talvez seu escravo; dentro da canoa viam-se todos os objetos próprios de uma pescaria.

— É um pescador, disse Otávio.

— Sim, falou o velho com voz trêmula, um pobre pescador, que vai fugindo da tempestade que se avizinha.

— Mas, meu velho, quem foge não pára.

(continua...)

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