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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Essa sua mórbida admiração por Floriano era tanto ingênua quanto sem razão. Como esse homem era estadista eminente e não tinha deixado nenhuma obra de estadista, obra que redundasse em benefício geral, que tendesse para a felicidade dos povos, na expressão de Bossuet? Como ele tinha mantido a ordem republicana , se atentara contra os tribunais, os parlamentos, as leis, e queria tudo isso curvado à sua vontade? Não era bem República que Costa queria; Costa desejava o regime russo ou melhor dos knatos tártaros.

Curioso é que na Rússia os avançados sonhassem com constituintes, tribunais independentes, ministros responsáveis e os que aqui se julgavam avançados não quisessem todo esse aparelho governamental...

A Revolução, que teve como um dos seus grandes escopos o estabelecimento de uma constituição escrita que limitasse o poder real, era armada por Costa, como?... Não se sabia bem como e por quê. Costa falava muito em princípios republicanos; mas a República na sua cabeça era um ídolo oco, vazio de significação, já não tinha mais fetiche, não era mais nada senão uma simples palavra, um palavrão que soava aos seus ouvidos mas que não continha uma idéia segura.

Não se pode bem dizer que fosse totalmente vazio; havia nele, no ídolo, alguma coisa: um desejo imoderado de sangue, de violência, de carnificina. Os sacerdotes não sabiam mais por que idéia, por que concepção imolavam a Moloch; mas continuavam a imolar com o automatismo de sacerdotes de crenças mortas , e mais ferozes até.

O que se contava de crueza empregada para vencer a revolta, igualava, se não excedia, às execuções russas; e com uma diferença: é que lá sempre houve uma forma de julgamento, mas na daqui — nenhuma!

Bogoloff, velho anarquista, compreendia que se pusesse em dúvida a lei, que se a condenasse; mas querer o Estado sem lei, admitir o despotismo como progresso, não querer restringir o governo, era absurdo, que não compreendia em inteligências tão medrosas da palavra rei ou imperador.

De resto, aquela superstição de virtudes especiais do militar tinha uns restos de concepção de nobreza, de classe privilegiada, muito de admirar na mentalidade de um republicano.

Alongava-se o russo nessas considerações quando o cansaço mental levouo a ler um jornal. Ele os lia durante as horas que administrava a Pecuária Nacional, com vagar e distraído. Na primeira leitura, não lhe tinha caído sob os olhos aquele trecho. Leu:

“Agita-se agora a sucessão presidencial do Estado das Palmeiras. Com a resignação do cargo pelo senador Macieira, presidente eleito, a curul governamental daquele Estado, deve ser preenchida brevemente, por meio de eleição. A abandalhada oligarquia que faz a infelicidade daquela terra, quer levar para o palácio das Pitangueiras a inválida figura do deputado Malaquias. Há nisso uma indecente manobra de Macieira. Não estando certo de que maneira o honrado general Bentes irá proceder com estas pustulentas oligarquias, resignou o poder para ficar aqui no centro, neutralizando a ação purificadora do governo que vem; enquanto isso, punha lá Malaquias, tio-avô da esposa do futuro presidente. Nós nada temos a dizer quanto ao Sr. Malaquias, a não ser que é uma figura apagada na política; mas, quem devia ir reger os destinos de Palmeiras, era o Coronel Contreiras, também parente do honrado general Bentes, possuidor como ninguém de uma brilhante fé de ofício com o curso de estado-maior, e engenharia, tendo no peito medalhas que muito recomendam os seus serviços de guerra. Além de tudo, o coronel Contreiras é um homem honesto, que tem vivido até agora do seu soldo, apesar de ter passado por boas comissões, e é filho do venerando José Maria”.

Esta notícia, ou como se diz nos jornais, esse “suelto”, fora lido com espanto por todos os que se interessavam pela política. Desde dez ou quinze anos que se perpetuavam na presidência do Estado das Palmeiras os apaniguados de Macieira e o próprio Macieira, não tentando ninguém disputar-lhe a indicação. Tinha-se o fato como uma lei e aquela lembrança que não podia ser Malaquias, mas Contreiras, longe de ser tomada como uma coisa sem valor, ganhou importância e foi discutida.

Lucrécio Barba-de-Bode que ainda descansava dos muitos vivas que dera a Bentes, quando foi a um prado de corridas, leu a notícia em casa, pois agora mais se demorava nela pela manhã em fora.



(continua...)

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