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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Viera muito pequeno de Portugal em companhia do irmão; fora tropeiro durante uns vinte anos em S. Paulo e Minas; depois estabeleceu-se na Mata, negociou forte e veio afinal, já velho, a levantar a sua tenda no Rio de Janeiro. Da sua paixão pela política apenas lhe restavam as recordações de quarenta e dois, ano em que se batera pela revolução de Minas, saindo ferido de uma pequena escaramuça na ponte de Santa Luzia; contava este fato a toda a gente e sempre com o mesmo entusiasmo.

Era viúvo; tivera três filhas, das quais apenas uma lhe restava, Branca; um mimo de quinze anos, a formosa tirana para quem o Aguiar pedia versos ao amigo e em honra da qual se afestoava agora o velho casarão do comendador.

Teobaldo chegou às cinco horas a Mata-cavalos, ainda muito impressionado pelas contrariedades desse dia.

- Ah! mas desta vez creio ter conseguido endireitar a vida ... . disse ele logo que entrou em conversa com o dono da casa.

E pôs-se a contar o ocorrido a respeito de Leonília e Ernestina.

- Tomara eu as tuas desgraças... respondeu aquele disposto a falar dos próprios amores.Teobaldo não lhe deu licença para isso e continuou a tratar de si, até à ocasião de irem ambos para a mesa.

Aguiar, que não era dos mais pecos em questões culinárias, caprichou no jantar que ofereceu ao amigo, e, à prova do terceiro vinho, já os dois lamentavam intimamente não dispor de mais segredos para os confiar um ao outro. Teobaldo pediu novas informações a respeito de Branca.

- Ah! fez o negociante, meneando a cabeça com os olhos fechados; vais ver o que é uma criatura perfeitamente adorável. Bela. inteligente, distinta, espirituosa, tudo o que há de bom, que há de puro e que há de mais sedutor no mundo! Uma obra-prima! Ah! que se ela sentisse por mim a metade do que eu sinto por ela!...

- É não desanimar, filho! Deixa correr o tempo; não acredito que uma menina de quinze anos resista a todo esse amor!

- Não sei, ela é de uma tal frieza para comigo...

- Talvez aparente... Não conheces as mulheres... foi para elas que se inventou o provérbio "Quem desdenha quer comprar".

- Em todo o caso não desanimarei sem ter esgotado até o último recurso.

- Está claro! E teu tio? que tal é?

- Um tipo, mas belo homem... Vais gostar dele. Fala-lhe na revolução mineira...

- Aquela casa pertence-lhe, ou é alugada?

- A casa em que ele mora? Pertence-lhe, e, como essa, mais duas lá mesmo em Botafogo.

- E ele vive só com a filha?

- Não; tem mais uma pessoa em casa: Mme. de Nangis.

- Mme. de Nangis? Quem vem a ser?...

- É uma professora francesa, a quem meu tio encarregou da educação de Branca.- Ah!... E é velha?

- Meia idade...

- Bonita?

- Não é feia.

- Mora lá há muito tempo?

- Há mais de oito anos.

- E não dizem nada a respeito dela com teu tio?

- Não, porque já disseram tudo o que podiam dizer.

- Com razão?

- Sei cá; é de supor que sim.

- Nunca percebeste nada entre eles?

- Nem pretendo.

- Por conveniência...

- Não.

- Então por que?

- Ora! Que diabo me interessa isso?...

- É boa! Pois não tencionas casar com tua prima?...

- Sim, mas minha prima nada tem que ver com Mme. de Nangis...

Teobaldo sacudiu os ombros em sinal de desaprovação.

- E ela que tal é? Simpática? perguntou depois.

- Quem? A professora? É: toca piano admiravelmente e dizem que tem espírito.

- Dizem?

- Sim; eu ainda não dei por isso.

- É instruída?

- Tanto como qualquer pretensiosa.

- Amável?

- Tanto quanto é instruída.

- Parece que não morres de amor por ela...

- Enganas-te; Mme. de Nangis protege o meu casamento.

- Ah! E só por isso é que a estimas?.

- Por isso e pela grande influencia que ela tem sobre meu tio.

- Então é exato o que disseram a respeito deles...

- Homem, a coisa vem desde os últimos tempos de minha tia...

- E por que o velho não se casa agora com a professora?

- Por uma razão muito simples: Mme. de Nangis é casada...

- Casada? E o marido?

- Está em Paris.

- Ah!...

E a graça é que lhe dá uma pensão.

- À custa do comendador?

- À custa do comendador é um modo de dizer, porque o que é dele é dela...- Ah! a coisa chegou a esse ponto?

- Ora!

* * *

(continua...)

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