Por Aluísio Azevedo (1897)
A chegada do carro sobressaltou os tranqüilos moradores. Laura veio logo à porta saber o que havia. A casa não tinha corredor, e viase, mesmo de fora, a salinha simples e guarnecida de velhos móveis.
— Ó Laura! gritou o cocheiro, apeandose. Anda daí a ajudar D. Ambrosina, que aqui vem a cair de fadiga!
Ambrosina foi recolhida ao melhor lugar e à melhor cama que havia na casa.
Jorge rejubilava na satisfação de prestar aqueles socorros, e recomendava que nada faltasse aos hóspedes sem calcular o desgraçado o perigo que metia em casa, e desgraça que preparava para si e para os seus.
Alfredo, aborrecido com o estado das suas calças penetrou na sala do cocheiro.
Era uma salinha limpa e arejada pelo mar. Havia entre a porta e a janela uma velha cômoda, sobre a qual ao lado de um silencioso e caduco relógio de metal amarelo com redoma e peanha, se aprumava sombriamente um Napoleão de gesso, com o seu olhar de águia debaixo do chapéu à polichinelo, com as suas botas e o seu capote, com uma das mãos instaladas legendariamente no peito a outra segurando uma canudo, que queria dizer um óculo
Esse boneco de gesso, ali onde o viam, tivera uma agitadora influência sobre o obscuro destino de Laura. Aos domingos, quando Jorge reunia alguns amigos para jantar, era ele o objeto de calorosas discussões; havia sempre na roda algum cego entusiasta do famoso corso que sacudido um bocado pelo vinho Figueira do cocheiro divagava de orelha sobre as campanhas napoleônicas, comunicando o próprio entusiasmo aos companheiros, para os quais os fatos da vida de Bonaparte tomavam proporções sobrenaturais e divinas.
Laura cresceu e palpitou sob a influência dessas conversas e, sem conhecer a verdadeira história de Napoleão, deixouse magnetizar pela cativante poesia da lenda.
Aos quinze anos, quando toda a donzela constrói o seu ideal de amor pelo que conhece de mais grandioso e de mais belo, ela formou o seu pela figura de gesso que ali, ao lado do inocente relógio, se deixara pintalgar pelas moscas desde o dia do casamento de Jorge.
A pobre sonhadora contava intimamente com a súbita aparição de um jovem militar, ardente e corajoso, que a tomasse da Praia do Russell e a sentasse no trono de França. Só depois de muito esperar em vão, foi que se desenganou e se decidiu aceitar, qualquer outro sujeito, que ao menos se parecesse fisicamente com o grande homem.
Quem mais estava no caso era o João Braga, por alcunha "O Vela de Sebo", em razão de sua farinhenta brancura e da sua figura grossa e curta. Um honesto padeiro, ainda moço, muito parecido efetivamente com o Napoleão de gesso.
Laura ficava horas esquecidas a olhar para o narigão aquilino do Vela de Sebo, para a sua testa desafrontada, para os seus olhos fundos e carrancudos, para a sua boca sem lábios, e para aquele enorme queixo, farto e redondo como um papo.
Ninguém atinava com a razão que levou a bela filha de Jorge, a "Flor do Russell", a gostar de semelhante criatura.
— Caprichos de mulher! explicava um dos amigos do cocheiro, e citava proverbialmente que "A mulher só não se casa com o carrapato, por não saber qual é o macho!"
O fato é que então Laura gostava bem do seu padeiro. Um dia ofereceulhe uma cigarreira de missangas, que bordara durante um mês inteiro, e esse trabalho foi muito apreciado no bairro. Alguém profetizou logo que ali estava uma menina de grande futuro.
— Dêemlhe asas! Dêemlhe asas! resumia o da teoria do carrapato; e verão depois o que sairá dali! Mas não será amarrada ao Vela de Sebo, que a Laurita há de ser algum dia alguma cousa!
Laura conhecia vários livros; romances quase todos. O pai às vezes lhe ouvia falar de cousas estranhas para ele, com um sorriso cheio de respeito e iluminado de amor. Quando ela dava na aula o D. João de Castro e dizia depois em casa a sua lição em voz alta e corrida, o pobre cocheiro extasiavase, acompanhando com a fisionomia os menores gestos e movimentos da filha. E se alguém da sua roda precisava de uma carta de mais circunstâncias, ou de um desenho para certo bordado, ou de molde para um vestido de festa, não ia a mais ninguém; procurava Laura, e ela sempre resolvia a dificuldade.
O pai sentia por tudo isso um grande orgulho.
— Não! lá certeza de que dei à pequena uma educação de princesa, isso é que tenho! dizia ele e acrescentava: — A Laura até o francês sabe! Tragamlhe aí qualquer livrinho em francês, e se ela não o destrinchar logo, aqui está quem dá as mãos à palmatória!
Do outro lado do relógio havia uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, fundida em porcelana e pintada vistosamente de cores vivas.
Servialhe de peanha um globo representando o mundo, sobre o qual uma cobra se debatia debaixo de um dos pés da Virgem.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.