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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Mas não nos deixemos levar pelas reflexões, nem nos retiremos ainda desta importante e histórica varanda onde se encerra o livro grandioso do mosteiro, livro em que as páginas são lousas, tesouro precioso de recordações despertadas por humildes covas.

Passamos ainda há pouco muito rapidamente pela quadra das sepulturas dos religiosos. Voltemos a ela. Cuidado, porém... Encostemo-nos às paredes para não pisar sobre as campas venerandas que cobrirão para sempre os despojos de vidas ilustres que fizeram a honra do convento e a ufania da pátria.

Aí está, perto da capela do Senhor do Bonfim, a sepultura de frei Fabiano.

Não nos demoremos diante dela.

Terei de falar-vos desse religioso, tipo de caridade e de paciência, quando subirmos ao teatro de suas admiráveis ações, quando entrarmos na sala dos sofrimentos e dos gemidos: na enfermaria.

Em frente à capela da Sacra Família, como dormindo o sono eterno defronte do seu seio sagrado, onde também dormem sono igual os dois augustos filhos daquele que tanto o honrou e exaltou em seus últimos anos, descansa Mont’Alverne, o célebre professor de filosofia e o derradeiro daquela esplêndida plêiade de oradores da igreja brasileira, plêiade que formou, além de outros, o grande padre Caldas, que foi o primeiro a morrer, e depois dele, S. Carlos, Sampaio, o padre Januário e ele, Mont’Alverne.

S. Carlos e Sampaio! Ei-los ali. Descansam sepultados entre as capelas das Dores de Nossa Senhora e do Senhor da Cana Verde. Tiveram os dois frades por berço pátrio a cidade do Rio de Janeiro, abrasou-os a ambos a mesma vocação, vestiram o mesmo hábito, floresceram no mesmo convento, foram irmãos pela ordem e irmãos pelo gênio. Contemporâneos, ambos engrandeceram o púlpito do Brasil. Ninguém profere o nome de um que não se lembre logo do nome do outro. Os mesmos sentimentos religiosos e patrióticos os uniram estreitamente na vida. A morte não ousou separá-los de todo.

S. Carlos faleceu em 1829 e foi encerrado na sepultura que ali vedes. Um ano depois, exalava Sampaio o último suspiro, e o seu cadáver ia descansar junto da cova de seu irmão, na sepultura contígua. Uma única parede separou os seus leitos eternos, as suas celas da morte.

Esta coincidência de serem tão perto um do outro enterrados os dois inspirados pregadores da ordem seráfica do Rio de Janeiro, deu lugar a uma lembrança feliz, despertada pela dor e pelo reconhecimento do mérito indisputável daqueles eloqüentíssimos franciscanos.

No triste dia do enterro de frei Sampaio foi o cônego Januário da Cunha Barbosa prestar ao seu defunto amigo os últimos ofícios de religião e caridade, e notando que davam ao ilustre finado uma sepultura imediata à de S. Carlos, desfez-se em pranto, e quando pôde falar, aplicando muito cabidamente as palavras consagradas pela Igreja em uma antífona dos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, exclamou:

– Gloriosi Príncipes terrae, quomodo in vita sua dilexerunt se, ita et in

morte sunt separati.

Não perturbemos por mais tempo a morada silenciosa da morte. Vamos continuar o nosso passeio por onde menos aflitivas ou dolorosas sejam as impressões que tenhamos de receber.

Aí está o refeitório. Entremos.

É uma grande sala oblonga, simples e pobre. Uma fila de mesas pequenas bem toscas se estende de cada lado, por todo o correr da sala. No meio desta, e à mão direita de quem entra, levanta-se a tribuna ou o púlpito donde se fazem as leituras da regra durante a refeição. No fundo, como único ornato, vê-se um painel da ceia do Senhor, painel que, aliás, não é de notável merecimento artístico. Adivinha-se que não foi Leonardo da Vinci nem Nicolau Poussin o autor desse quadro.

A sala do refeitório deve parecer bem triste atualmente aos frades religiosos do convento de S. Antônio; porque, se dantes, cada uma de suas mesas era convenientemente ocupada, e nenhuma chegava a mostrar-se de sobra, hoje vazias ficam muitas, e à sala, como aos frades que a ela acodem na hora da refeição, bem se poderia aplicar o mil vezes repetido verso de Virgílio:

Apparent rarinantes in gurgite vasto.

Ao lado direito do refeitório há uma porta que abre caminho para a menos simpática das divisões e acomodações da casa: para o cárcere.

Não acrediteis, porém, que o cárcere dos frades capuchos do Rio de Janeiro seja uma terrível masmorra, uma sepultura dos vivos, um medonho inferno cheio de aparelhos de tormento. Lá se foi, graças a Deus, o tempo desgraçado desses horrores, em que primaram os dominicanos com as suas inocentíssimas proezas da inquisição, que tinham a sacrílega sem-cerimônia de chamar santo ofício. O cárcere do convento de S. Antônio é uma sala onde o ar e a luz penetram livremente, onde o asseio se observa com prazer, e onde o frade que delinqüiu fica trancado e rezando, se reza, ou maldizendo da sua vida, se maldiz.

(continua...)

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