Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
A victima de uma seducção delinquio diante da virtude, calcou aos pés um dever, merece uma punição ; seja punida pois.
A bao sociedade rejeita a mulher seduzida, a victima ; ainda bem.
Mas o seductor ?... mas o algoz ?...
A sociedade que se chama boa, a sociedade que pune a victima, abraça o algoz; a sociedade que repelle a mulher seduzida, festeja o seductor!...
Não é moralisada uma tal sociedade; não, e não.
É uma sociedade injusta e cruel, escrava da tyrannia dos homens, corrompida e ignobil.
O crime é sempre um crime, seja elle praticado por um homem, como por uma mulher.
Como se explica a contradicção de se ostentar uma justa severidade com a mulher que é fraca, e uma inexplicavel condescendencia com o homem que é forte ?...
Não; tal sociedade não é moralisada, e para que o seja, deve estender o castigo das seducções aos seductores e ás seduzidas ; deve repellir os algozes como repelle as victimas; deve também trancar suas portas aos libertinos que sacrificão ao seu infame sensualismo a reputação, a felicidade e a vida inteira de pobres jovens que por elles se deixão enganar.
Mas a nossa brilhante e ufanosa sociedade não somente tolera, como chega a parecer que applaude os seductores, ouve as historias dos seus horriveis triumphos, e sorri ouvindo-as; não se envergonha da companhia dos algozes, e aperta-lhes a mão !...
E o pai que acaba de dizer á sua filha — não te sentes ao pé daquella mulher, não lhe falles, porque está manchada pela seducção ! — vê logo depois, e não acha que dizer, vendo sua filha dansar ao lado do seductor, e ser por elle levada em prolongado passeio pelas salas do baile !...
E chama-se moralisada uma sociedade que assim procede !
XXVIII.
Emquanto Jorge de Almeida brilhava no meio das festas, alegre e ufanoso, a sua victima experimentava todas as afflicções de um opprobrio irremediavel.
Juliana ia definhando aos poucos, tal como a flor que vai murchando, depois de ter sido ferida pela tempestade.
Todas as embriagadoras esperanças da belleza e da mocidade tinhão-se apagado no coração da infeliz moça.
Aquella que pouco antes era a donzella vaidosa que se suppunha a mais bella de entre as mais bellas das suas rivaes, reconhecia agora que lhe era impossivel collocar-se a par da menos bonita das jovens, que apenas a olhavão com inveja nos seus dias de triumpho.
E, torturada assim na sua vaidade, Juliana sentia que lhe entrava no coração o desespero, vendo que ás adorações e ao culto suave e deleitoso de que tinha sido objecto, succedêra o desprezo de muitos e a compaixão de alguns.
Que podia ella esperar ainda?... Todo o futuro de uma moça acha-se exclusivamente ligado ao seu casamento ; mas haveria no mundo um homem não indigno e que fosse bastante generoso para arrancar Juliana do abysmo da vergonha em que tinha cahido, dando-lhe a sua mão e o seu nome ?... e se um homem desses lhe apparecesse, Juliana, ainda mesmo depois de ser sua esposa, não teria de côrar de cada vez que levantasse para elle os olhos?...
Tudo pois estava acabado : nada mais de festas e de alegria, nada mais de adorações de culto, de perspectiva de felicidade, nada mais que sonhos de brilhante futuro; tudo estava acabado : havia só uma realidade terrivel, inevitavel, perpetua : era o opprobrio !...
A moça que sacrifica o seu pundonor e a sua honra torna-se como uma leprosa no meio da sociedade, em que todos lhe voltão as costas.
O mundo era um inferno para Juliana; o mundo rejeitava-a, ou só a aceitaria para impôrlhe um papel ainda mil vezes mais vergonhoso.
A situação era horrivel.
E a misera, a misera, a quem uma falsa educação fizera incrédula, nem ao menos tinha a doce consolação de voltar os olhos para o
XXVIII.
Emquanto Jorge de Almeida brilhava no meio das festas, alegre e ufanoso, a sua victima experimentava todas as afílicções de um opprobrio irremediavel.
Juliana ia definhando aos poucos, tal como a flor que vai murchando, depois de ter sido ferida pela tempestade.
Todas as embriagadoras esperanças da belleza e da mocidade tinhao-se apagado no coração da infeliz moça.
Aquella que pouco antes era a donzella vaidosa que se suppunha a mais bella de entre as mais bellas das suas rivaes, reconhecia agora que lhe era impossivel collocar-se a par da menos bonita das jovens, que apenas a olhavão com inveja nos seus dias de triumpho.
E, torturada assim na sua vaidade, Juliana sentia que lhe
entrava no coração o desespero, vendo que ás adorações e ao culto suave e
deeitoso de que tinha sido objecto, succedêra o desprezo de muitos e a
compaixão de alguns.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.