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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Um camarada de São Paulo se lhe oferecera para obter alguma colaboração em um dos jornais da corte. Mas até então nada conseguira; as pequenas empresas não podiam pagar; as grandes entendem que o verdadeiro redator de uma folha que se respeita, é o soberano público à razão de tantos réis por linha. 

O livro que Ricardo traduzia era de Balzac: Eugênia Grandet. Esperava achar um editor para a obra-prima do ilustre romancista francês; coisa bem duvidosa. 

Às vezes deitava a pena sobre a bandeja do tinteiro, e derreando contra o recosto da cadeira, perdia-se em cogitações que o trabalho interrompera, e agora com a pausa voltavam a eito. 

Conhecia-se-lhe pelo aspecto que tristes eram aquelas cismas; ressumbrava em seu olhar apagado o desalento que iam derramando-lhe nos seios d’alma. 

A expressão habitual do mancebo era a sisudez afável, que nem se arruga na carranca, nem se descompõe no frouxo do riso. Nesse dia porém mostrava-se grave e preocupada sua fisionomia. 

O dinheiro, esse azoto social, sem o qual não se vive nas cidades: eis a grande questão, que se debate nas ruas e praças, desde o mendigo até o rei, um esmolando os magros vinténs, o outro distribuindo os milhões nacionais. Era essa também a preocupação de Ricardo naquele momento. As circunstâncias do mancebo de dia em dia se tornavam mais estreitas. 

Morava ele com a mãe de Fábio, que o agasalhara como o futuro cunhado de seu filho; já essa posição de hóspede o constrangia, apesar dos contínuos protestos da boa senhora, a repetir todos os dias, que a despesa de casa não aumentara um real por sua causa, e que longe de incomodar-se, tinha ela ao contrário o maior prazer com tão agradável companhia. 

Ainda quando assim fosse, e Ricardo procurava tornar-se o menos pesado, acanhava-o essa dependência de alheio favor, e repugnava-lhe viver a expensas de outrem, apesar da amizade de Fábio e dos laços que breve deviam ligar as duas famílias. 

Mas o que exacerbara naquele dia estas nobres suscetibilidades de Ricardo, era a posição especial em que se achava com relação a Fábio, desde o último domingo. 

Já anteriormente não gostara do desembaraço com que o noivo de sua irmã se portara em casa do Soares; disfarçara contudo, fazendo-lhe apenas ao de leve alguns reparos, a que o outro não deu importância. 

Foi porém no dia do passeio à “Vista Chinesa” que Ricardo se recolheu contrariado ao último ponto, não só pela semcerimônia com que se intrometera o Fábio na roda dos convidados, filando o cavalo do Lima, como pelo namoro escandaloso que travara com D. Guilhermina. 

Sentia Ricardo a necessidade de ter com o amigo uma prática séria, na esperança de coibir a tempo aqueles ímpetos e evitar futuros dissabores, senão verdadeiros desregramentos, que trariam a infelicidade de duas famílias. 

Fábio porém evitava as ocasiões em que o assunto pudera muito naturalmente vir a talho, trazido pela divagação de uma palestra entre amigos. Um emprazamento emprestaria à conversa ares de solenidade que seriam de mau prenúncio. Podia o noivo de Luísa enxergar nas palavras do amigo uma exprobação de quem já se arrogava autoridade de chefe de família; e irritando-se, persistir no caminho que levava. 

Razão tinha Ricardo para recear esse resultado; pois desde a primeira visita à casa do Soares sentia que o espírito de Fábio, arrastado pela sedução daquela sociedade, subtraía-se à sua influência. 

O menor arrefecimento nas relações dos dois moços teria conseqüências graves, pois determinaria a retirada de Ricardo para São Paulo, desvanecendo a esperança por tanto tempo afagada de fazer carreira na corte, e preparando para Luísa uma decepção cruel. 

Tais eram os pensamentos que nessa manhã carregavam a fronte do jovem advogado de uma nuvem de tristeza. Eram dez horas e meia, e Fábio ainda não chegara ao escritório. A sua mesa, colocada do outro lado da sala, estava intacta como ele a deixara sábado. Nos dois cantos viam-se as rimas de autos velhos, que o moço pedira aos escrivães a pretexto de estudar certas questões; mas realmente para dar à sua banca o aspecto forense. Esses cartapácios faziam as vezes de uma tabuleta. 

- É capaz de não vir hoje, como já não veio ontem, disse consigo Ricardo. 

E ia voltar à tradução, quando ouviu passos na escada; momentos depois na porta de comunicação entre os dois repartimentos surdiu a figurinha encarquilhada do Visconde de Aljuba: 

- Pode-se entrar? 

- Oh! Sr. visconde!... Faça favor. 

Ricardo, surpreso da visita, ergueu-se para oferecer ao Aljuba uma cadeira a seu lado. 

(continua...)

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