Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Oh! pois bem; mas o que vemos na sociedade?... quem é que se apressa a desejar prender-se por laços sagrados?... é porventura o homem, que pode esperar dez anos sem perder na opinião dos outros homens?...
– Que quer dizer, senhor?...
– Quero dizer, minha senhora, que acreditando em suas palavras, julgando-me feliz e amado, eu me espanto de que a mulher que me ama, e que tem a certeza de ser por mim idolatrada, livre, tão senhora de sua mão como de seus pensamentos, não se lembrasse uma só vez ainda de me estender essa mão há tantos anos desejada, dizendo-me: – ei-la aqui!
– Ah! senhor!...
– Quero dizer que tenho pensado comigo mesmo sobre a causa provável dessa frieza, e seguramente há erro em todos os meus juízos. Pensei, eu o confesso, senhora, que eu podia ter sido o objeto de uma zombaria de seis anos... que o amor, em que acreditava, era fingido...
– E teve duas vezes esse mesmo pensamento?... perguntou Mariana, deixando cair duas grossas lágrimas.
Henrique não viu felizmente as lágrimas da viúva.
– Não... não... esse pensamento duas vezes concebido seria capaz de matar-me; esse pensamento foi certamente uma loucura; mas como essa, mil outras loucuras me vieram à cabeça, e finalmente uma, que foi a pior de todas, que é horrível!...
– Mas por felicidade nossa, senhor, não passará também de uma loucura.
– Pensei, disse Henrique voltando os olhos para a sala, que havia no mundo um homem que se opunha à minha dita... e que a mulher que eu adoro, obedecia à sua voz e tremia debaixo de seus olhos!
Henrique encarou Mariana como querendo apanhar-lhe no rosto, no tremer convulsivo de um músculo, ou no espanto do olhar, um segredo que ela guardasse; mas apenas viu raiar nos lábios da interessante viúva o mais feiticeiro dos sorrisos.
Com serenidade, sangue frio e graça respondeu Mariana em tom alegre:
– Quando eu dizia que era ainda uma loucura!...
– Uma loucura somente?... uma quimera, e mais nada.
– Sim... sim; somente uma loucura; mas uma doce loucura, que me agrada, porque a sua origem me é grata.
– Deus permita que eu fosse realmente um louco!
Apesar da serenidade que afetava, a viúva sentia-se terrivelmente combatida interiormente pelas suspeitas de Henrique; a todo transe quis saber até onde tinham elas chegado.
– Porém, disse ela, para que ficar assim apenas conhecido por metade o juízo que fez a meu respeito?... arrependo-me de o haver interrompido.
– Ao contrário, senhora, fez bem em dar apressada um copo d’água ao homem morto de sede; tanto mais que o meu juízo parou aí... não pensei mais nada...
– Fala seriamente? não procurou conhecer esse homem que podia tanto em mim, nem descobrir a causa de sua admirável influência?...
– Não passei além do que disse.
– Oh! exclamou Mariana, Deus permita que os seus votos de amor sejam mais verdadeiros do que as suas últimas palavras...
– Por que, minha senhora?...
– Porque agora não disse a verdade. O homem do qual quer falar está ali na sala... seus olhos o procuraram ainda há pouco.
– É verdade, murmurou Henrique.
Mariana corou, e disse com violência mal comprimida:
– E o senhor... o homem a quem eu distingui com o meu amor, o senhor que é um homem nobre, porque se o não fora eu o não amara, abaixou-se até o ponto de tomar para seu rival um miserável que não tem espírito nem beleza?... rebaixou-me, dando-me por amante um moço sem mérito e que eu detesto!...
– É possível...
– Oh!... eu sei amar melhor do que sou amada!...
Henrique apertava com ardor uma das mãos de Mariana; cairia a seus pés, se não pudesse ser visto por tanta gente que estava a alguns passos deles.
– Eu sei amar melhor, continuou a viúva. Porque ao menos eu não rebaixaria o homem que amo, julgando-o capaz de esquecer-me por uma mulher que não se pudesse comparar comigo!...
– Mas aquele homem por toda a parte a segue... e eu... ah! senhora, eu já disse que sou um louco.
O rosto de Mariana tomou ainda uma nova expressão fisionômica; radiou nele outra vez o prazer, e com acento gracioso respondeu:
– Quando eu digo que amo, que me é grata uma loucura assim!...
– Que contradição, meu Deus!
– Que quer?! a culpa não é minha; quando penso em levantar-me violenta e ressentida contra essa loucura, vem logo desarmar-me a imagem do louco!...
Henrique torceu as mãos apaixonadamente, e disse:
– Ah! senhora! eu quisera sentar-me em um trono para lhe dar metade dele...
eu tremeria menos assim, porque o esplendor do meu diadema deslumbraria àqueles que ousassem erguer os olhos para aquela que se sentasse a meu lado!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.