Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Hugo fez quanto pôde para sossegar sua mãe, a quem ainda encontrou despeitada; enfim, jurou-lhe que seria o primeiro e último passeio marítimo que fariam; mas que então era impossível desfazer o que estava projetado, e que a todos parecia dar tanto prazer. Às oito horas da noite ergueram-se para partir; e Ema, que até à porta os acompanhou, levantou o braço e, com sua mão trêmula, mostrou uma nuvem negra que se deixava ver no horizonte.
— Não é nada, minha mãe, disse Hugo; não vê como a lua está clara e bela?...
— A lua turvar-se-á.
— Nada de maus agouros, minha mãe, até à volta... e prometemos cear bastante.
— Minha Honorina, disse tristemente a velha, Deus te acompanhe!...
A sociedade partiu: três batelões já se achavam na praia prestes para recebê-los, e imediatamente tratou-se de embarcar. Uma boa meia hora se empregou na divisão da companhia.
À exceção de Jorge, que por gênio e sistema achava que tudo no mundo corria sempre bem, e não abria a boca para falar, senão quando era absolutamente necessário que fizesse uma pergunta ou desse uma resposta; à exceção ainda de Venâncio, que pensava e desejava pela alma de sua mulher, todos os outros homens empenhavam-se valorosamente por ir no batelão em que se embarcasse Honorina.
O único, que só por gestos havia demostrado esse desejo, fora Brás-mimoso; porque logo no princípio da questão, querendo expor muito parlamentarmente os seus direitos, e tendo para isso já a boca aberta, foi obrigado a fechá-la incontinenti; pois Manduca, que junto dele se achava, deu-lhe um beliscão com tão boa vontade, que o fez ir às nuvens.
Hugo divertia-se extraordinariamente com a discussão suscitada; finalmente, para se pôr um termo a ela, decidiu-se que Honorina escolhesse três companheiros.
Honorina respondeu sem hesitar:
— Escolho a meu pai, a Raquel e ao Sr. Félix, que deverá acompanhar-me, se meu pai quiser que eu cante.
— No que não haverá dúvida nenhuma, respondeu Hugo.
Rosa achou um não sei quê de pouco bonito na escolha, que de seu primo fez Honorina para ir com ela no mesmo batel.
Venâncio chegou-se respeitosamente para ao pé de sua mulher, e falou-lhe ao ouvido.
— Tomásia, em que batel julgas tu mais conveniente que eu me embarque?
— Naquele em que eu não for, respondeu imperiosamente Tomásia: não é justo nem decente que ande o senhor sempre atrás de mim.
O resto da companhia embarcou-se sem demora. Lucrécia, Rosa, Venâncio e Otávio no segundo batel, e no terceiro, enfim, Tomásia, Jorge, Brás-mimoso e Manduca, que havia tomado por timbre andar constantemente à pista do seu rival. Brás-mimoso já tinha jurado cem vezes aos seus botões que aquele rapaz era o homem mais impertinente do mundo todo.
Os batéis afastaram-se da praia.
Era belo vê-los como graciosos, iluminados e galhardos docemente se deslizavam pela superfície do mar sereno de Niterói!...
Soprava uma aragem suave e deleitosa; a noite estava clara, brilhante e fresca.
A lua gostosa se namorava, mirando-se no espelho das ondas.
E os três batéis iam indo... e dos remos que se erguiam do seio do verde lago, caía uma chuva de lágrimas brilhantes, que se diria um enxame de pirilampos.
A hora e o sítio pareciam ainda mais próprios para doces meditações do que para o ruído do prazer.
Honorina e Raquel, predispostas como se achavam para deixar ir suas almas enlevando-se e perdendo-se no encanto agridoce da melancolia, não puderam furtar-se à influência de tudo isso que se passava em derredor delas: o monótono ruído dos remos; o fraco murmúrio das ondas; a suave frescura do favônio; o sossego do sítio; o silêncio da hora, tudo, tudo as convidava a meditar... e elas meditavam.
E uma jovem, quando medita, é sempre sobre amor.
A mímica dessas duas moças demonstrava que havia um ponto de notável dessemelhança em a natureza de seus pensamentos.
Raquel tinha a cabeça inclinada para baixo e os olhos fitos no fundo do batel; cedendo a inexplicáveis movimentos de desassossego, suas mãos, que se achavam unidas uma à outra sobre o colo, apertavam-se mútua e cruelmente; seus lábios às vezes estremeciam, como dando passagem a um suspiro; e então ela olhava cuidadosa por um instante para seus três companheiros de passeio, e de novo caía na sua primeira posição.
Dir-se-ia que Raquel tinha na alma um pensamento doloroso e fatal que desejava esconder de todos, e abafá-lo dentro de si mesma.
Honorina, ao contrário, estava um pouco voltada para fora, e tinha os olhos embebidos em um único ponto do mar; brando e meigo sorriso se deslizava em seus lábios; os negros caracóis de suas belas madeixas brincavam, mercê do zéfiro, sobre suas faces... e ela também suspirava. E, pois, Honorina como que se aprazia em abrir as portas de sua alma, em deixar sair pelos olhos o pensamento que a ocupava.
A meditação da primeira é, portanto, um segredo; o pensamento da segunda podia ser perfeitamente compreendido, ao menos pela sua amiga.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.