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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Essa preocupação de estudo e exame não foi a de Inácio Costa. O ardente republicano, fundador da República, que foi ao lado de Benjamim Constant, não sentiu absolutamente na plataforma nem grandes coisas nem motivos de dúvida. Aquilo era uma simples cerimônia e não precisava mesmo Bentes cumpri-la, porque bastava inspirar-se nos grandes antecedentes históricos de Benjamim, Tiradentes e Floriano, para fazer um bom governo.

— Bogoloff — dizia ele, certa vez ao russo, no seu gabinete — os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos. Os metafísicos não querem concordar e têm perturbado a marcha ascendente da humanidade, a completa passagem do período metafísico para o científico industrial. Essas preocupações dos legistas retrógrados não são mais da nossa época. A grande síntese social que Comte estabeleceu, completando Condorcet por De Maistre, demonstra perfeitamente isso. Bentes tem razão em fugir à pedantocracia universitária...

Bastam os exemplos! Floriano...

— Que fez Floriano?

— Não sabe? Foi o maior estadista que tivemos.

— Quais são as suas obras?

— Manteve a forma republicana federativa com uma energia

verdadeiramente republicana. Era um estadista moderno... Quer saber de um ato dele?

— Quero.

— Você vai ouvir. Como o marechal precisasse de dinheiro para fazer face às urgentes despesas que a revolta acarretava, mandou que o Tribunal de Contas registrasse um crédito de que ele tinha necessidade. O presidente do Tribunal negou-se formalmente a dar a sua assinatura ao tal pedido, por não estar de acordo com as leis. O ministro da Fazenda, ao saber dessa resolução, foi comunicá-la imediatamente ao marechal. Floriano não gostou; mas, sorridente, pediu ao ministro que conseguisse do presidente do Tribunal ir ter com ele uma conferência. Na manhã seguinte, muito cedo, estava no Itamarati o presidente do Tribunal de Contas. Floriano recebeu-o muito amável e mostrou a situação do governo e a urgente necessidade que havia de tal crédito. O presidente, inabalável, disse que não assinava o pedido, pois era ilegal, inconstitucional, que era isto, que era aquilo. Floriano ouviu tudo muito calmo e, em meio ao discurso do presidente bateu na testa e perguntou: —“O senhor é o Doutor Fulano?” —“Sim senhor, respondeu o presidente” —“Ora, Doutor, queira me desculpar. Esta minha cabeça anda tão cheia de atrapalhações!... Não era com o senhor que eu queria falar, era com o seu sucessor”. — “Como? perguntou surpreso, o ministro do Tribunal”. — “É verdade, Doutor, o senhor está aposentado desde ontem”. E assim foi. Nessa mesma tarde, com data do dia anterior era publicado um decreto que declarava aposentado o presidente recalcitrante. Era assim Floriano! Isso é que é um estadista, Bogoloff!

E Inácio Costa bateu-lhe no ombro e saiu do gabinete, abanando o seu fraque preto.

Continuava Bogoloff a trabalhar intensamente no ressurgimento da pecuária nacional. O seu campo de experiência era limitado a um salão e os laboratórios eram constituídos por um armário cheio de regulamentos que Xandu expedia a mancheias.

Desde a manhã até às quatro horas, passava a ler, assinando de quando em quando um ofício que o secretário trazia, porque a Diretoria estava constituída do diretor, secretário e ror de escriturários. De bois ainda não se cogitava; e Bogoloff não se aborrecia.

As visitas de Inácio Costa eram constantes e vinham quebrar a monotonia das horas em que o russo passava no gabinete. Ele ouvia com paciência as suas conversas políticas, observa-lhe as opiniões e surpreendia-se com elas. Verificou com singular assombro que Inácio tinha do governo uma concepção paternal de “mujik”; que o seu desejo era entregar todos os poderes a um só, a um tirano e que esse tirano fosse um militar. Não compreendia que um homem como ele, que se dizia republicano, democrata, tivesse semelhante idéia de república. Inácio se supunha ilustrado, culto; entretanto, desprezava todo o ensinamento, todo o esforço dos homens de pensamento em restringir a autoridade, o poder total de um só.Inácio parecia não se Ter apercebido dessa feição dos governos modernos, dessa excessidade de contrapesos, de recíproca fiscalização entre os depositários do governo, para que nenhum fosse efetivamente governo. Acusava de retrógrados os que a queriam, mas nele é que havia uma volta ao governo absoluto dos orientais.



(continua...)

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