Por Aluísio Azevedo (1895)
- Vossemecê que deseja?
- O Sabino?
- Ainda não voltou.
- Quero o fato de casaca e o sobretudo; mas isso com pressa! Não posso me demorar neste inferno! Que delicioso domingo!
Os gritos de Ernestina repetiam-se.
- E de mais a mais aquela música!... pensava o rapaz a morder os beiços. Ah! mas tudo isto há de endireitar agora por uma vez ou eu não serei quem sou!...
O Coruja surgiu à porta do quarto para dizer muito aflito:
- Teobaldo! ó Teobaldo! Vê esta mulher, que está perigosa, coitada!
- Que a leve o diabo! não fosse idiota!
O outro lançou-lhe um olhar de censura.
- Isso passa.. . disse aquele como para se justificar.
- Um simples ataque de nervos...
E, vestindo a roupa que lhe trouxe Caetano:
- Não tenhas receio, ela voltará a si...
- É que parece que lhe falta o ar...
- Desaperta-lhe o colete...
- Eu?... perguntou o Coruja enrubescendo.
- Isso é o que devias ter feito logo.
E, apressando o laço da sua gravata branca, foi ter com Ernestina, desabotoou-lhe o vestido, desatou-lhe o colete e, depois de a sacudir duas vezes, deixou-a cair de novo sobre a cama.
- Não é ....... disse ele, olha, põe-lhe mais água de Colônia na cabeça e dá-lhe de cheirar daquele frasquinho que está sobre a mesa.
Coruja obedeceu e ele correu à sala para acabar a sua toilette. Já pronto, o sobretudo no braço, um charuto ao canto da boca.
- Melhorou?
- Está mais tranqüila, creio que vai tornar a si...
- Bem. É preciso que eu saia antes que ela acorde. Despediste-a, como te recomendei?
- Sim, mas inutilmente, não houve meio de a convencer...
- Pois então, em voltando de todo a si, repete-lhe a ordem, e, se ela insistir, mudamo-nos amanhã mesmo..
- Amanhã?...
- Ah! É preciso acabar com isto uma vez por todas!... Quero saber se vim ao mundo só para servir de divertimento a estas senhoras... . Que horas são?
- Devem ser quatro.
- Bom! Ó Caetano!
- Meu senhor.
- Vê se o tílburi ainda está aí embaixo.
E, muito elegante na sua casaca, disse ao Coruja, batendo-lhe no ombro:
- Até logo. Janto com o Aguiar e depois vou a uma soirée, na casa de um tio que ele tem em Botafogo. Adeus, não te descuides da Ernestina. E saiu.
XVII
O Aguiar morava lá para Mata-cavalos, em casa própria, e tão caprichoso era com esta quanto com a sua própria pessoa.
Aquelas pequenas salas forradas de fresco, mobiliadas com certo esmero, enfeitadas de quadros e cortinas, diziam admiravelmente com o tipo do dono.
Orçava ele então pelos vinte e oito anos e parecia mais bem disposto que nunca. Bonito, mas antipático, tinha uma dessas caras gordas, bem barbeadas, sem rugas nem espinhas, bigode curto e retorcido à força, queixo redondo, olhos pequenos e vivos, nariz grosso, testa muito estreita e magníficos cabelos.
Não era muito gordo, nem tão pouco muito magro; não era alto, mas, igualmente, ninguém podia dizer que era baixo, e vestia-se com inalterável apuro, chegando a fazer disso uma preocupação.
Era um luxo a roupa branca que ele usava durante o trabalho; gostava das calças de brim engomado e trazia sempre boas pedras de valor no peito da camisa e nos dedos.
Aguiar pertencia ao comércio tanto por gosto como pelas circunstâncias em que nascera; destinado para isso desde o berço por seu pai, um rico negociante português, dera os primeiros passos entre o Razão e o Caixa e criara os primeiros cabelos da barba em Londres, para onde o enviara aquele a praticar em velhas casas comerciais.
Não chegara a conhecer a mãe, porque esta morrera pouco depois de o dar à luz; só tornou ao Brasil com a notícia do falecimento de seu pai, cujo lugar no comércio preencheu logo.
Foi então que Teobaldo se relacionou com ele, por acaso, em um baile de máscaras no Pedro II. O filho do barão, que nesse tempo era ainda um bom gastador, fascinou-o de pronto com as suas maneiras fidalgas e muito mais distintas que as dele; dentro em pouco haviam-se feito companheiros inseparáveis de pândega; quase sempre ceavam juntos, gastavam com a mesma largueza, conheciam as mesmas mulheres e, muita vez, jogavam ao lado um do outro nas tavolagens da época.
As desastrosas circunstâncias a que ao depois se viu Teobaldo reduzido, separaram-nos por algum tempo, mas não de todo; e, agora, aquele convite para a casa do comendador Rodrigues e as confidencias que o precederam, como que o ligavam de novo e mais estreitamente.
O comendador era tio do Aguiar por parte de pai; velhote de seis palmos de altura, forte e nervoso, coração bom, mas de gênio irascível e fulminante.
O sobrinho dizia a rir que ele, se lhe chegassem um charuto aceso à ponta do nariz, estourava.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.