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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

Mas não foi preciso que o levasse, porque daí a um instante, Jerônimo, com o seu ar tranqüilo e passivo de quem ainda se não refez de todo depois de uma longa moléstia, surgiu-lhe à porta.

— Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o cafezinho aqui mesmo...

— Entra, seu Jerônimo.

— Aqui ele sabe melhor...

— Você pega já com partes! Olha, sua mulher anda de pé atrás comigo! E eu não quero histórias!...

Jerônimo sacudiu os ombros com desdém.

— Coitada!... resmungou depois. Muito boa criatura, mas...

— Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizência! É mesmo vicio de Portugal: comendo e dizendo mal!

O português sorveu com delícia um gole de café.

— Não digo mal, mas confesso que não encontro nela umas tantas coisas que desejava...

E chupou os bigodes.

— Vocês são tudo a mesma súcia! Bem tola é quem vai atrás de lábia de homem! Eu cá não quero mais saber disso... Ao outro despachei já!

O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo.

— Outro quem?! O Firmo?

Rita arrependeu-se do que dissera, e gaguejou:

— É um coisa-ruim! Não quero saber mais dele!... Um traste!

— Ele ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro.

— Aqui? Qual! Nessa não caio! E se vier não lhe abro a porta! Ah! quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo!

— Isso é verdade, Rita?

— Quê? Que não quero saber mais dele? Esta que aqui está nunca mais fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz!

— Ele fez-lhe alguma?

— Não sei! não quero! acabou-se!

— É que então você tem outro agora...

— Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem!

— Por que, Rita?

— Ora! não paga a pena!

— E... se você encontrasse um... que a quisesse deveras... para sempre?...

— Não é com essas!...

— Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!... — Pois diga-lhe que siga outro oficio!

Ela se chegou para recolher a xícara, e ele apalpou-lhe a cintura.

— Olha! Escuta!

Rita fugiu com uma rabanada, e disse rápido, muito a sério:

— Deixa disso. Pode tua mulher ver!

— Vem cá!

— Logo.

— Quando?

— Logo mais.

— Onde?

— Não sei.

— Preciso muito te falar...

— Pois sim, mas aqui fica feio.

— Onde nos encontramos então? — Sei cá!

E, vendo que Piedade entrava, ela disfarçou, dizendo sem transição:

— Os banhos frios é que são bons para isso. Põem duro o corpo!

A outra, embesourada, atravessou em silêncio a pequena sala, foi ter com o marido e comunicou-lhe que o Zé Carlos queria falar-lhe, junto com o Pataca.

— Ah! fez Jerônimo. Já sei o que é. Até logo, Nhá Rita. Obrigado. Quando quiser qualquer coisa de nós, lá estamos.

Ao sair no pátio, aqueles dois vieram ao seu encontro. O cavouqueiro levou-os para casa, onde a mulher havia posto já a mesa do almoço, e com um sinal preveniu-os de que não falassem por enquanto sobre o assunto que os trouxera ali.

Jerônimo comeu às pressas e convidou as visitas a darem um giro lá fora. Na rua, perguntou-lhes em tom misterioso:

— Onde poderemos falar à vontade?

O Pataca lembrou a venda do Manuel Pepé, defronte do cemitério. — Bem achado! confirmou Zé Carlos. Há lá bons fundos para se conversar.

E os três puseram-se a caminho, sem trocar mais palavras até à esquina.

— Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquele último. — De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro.

— E o que é que se faz?

— Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é encontrado à noite.

— No Garnisé, afirmou o Pataca.

— Garnisé?

— Aquele botequim ali ao entrar da Rua da Passagem, onde está um galo à tabuleta.

— Ah! Defronte da farmácia nova...

— Justo! Ele vai lá agora todas as noites, e lá esteve ontem, que o vi, por sinal que num gole...

— Muito bêbado, hein?

— Como um gambá! Aquilo foi alguma, que a Rita Baiana lhe pregou de fresco!

Tinham chegado à venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se sobre caixas de sabão vazias, em volta de uma mesa de pinho. Pediram parati com açúcar.

— Onde é que eles se encontravam?... informou-se Jerônimo, afetando que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no São Romão?...

— Quem? A Rita mais ele? Ora o quê! Pois se ele agora é todo cabeça-de-gato!...

— Ela ia lá?

— Duvido! Então logo aquela! Aquela é carapicu até o sabugo das unhas!

— Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que continuou a falar a respeito da mulata, enquanto Jerônimo o escutava abstrato, sem tirar os olhos de um ponto.

O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, disse-lhe emborcando o resto do copo:

— Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!...

— Ainda estou muito fraco... observou lastimoso o convalescente.

(continua...)

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