Por Aluísio Azevedo (1897)
Cabelos negros e crespos, achatados na testa pelo uso constante de um grosseiro chapéu de feltro, olhos escuros, cor de tabaco, barba espessa, fartas sobrancelhas arrepiadas, nariz grosso, afogado em sangue, dentes grandes e quadrados.
Cobrialhe a pequena parte do rosto que não fora conquistada pela invasão brutal dos cabelos, um moreno quente, listroso, cheio de vida e de força. Tinha as mãos largas e resguardadas de músculos possantes, peito amplo e pescoço vigoroso.
Entretanto, por detrás daquela estatura gigantesca e de energia de seu todo, estava um coração brando e flexível.
Jorge era um bom homem. Gaspar tomarao ultimamente a seu serviço, mas já o conhecia de longa data. O Médico Misterioso exercia sobre ele grande influência moral e votavalhe amizade.
Quando, na noite do infeliz jantar, Ambrosina fugia por um lado da chácara, procurando abafar os passos para não ser percebida pelo marido, Jorge entrava pelo outro, com a precaução de quem deseja surpreender alguém.
Não se viram.
A moça ganhou a rua, e ele, seguindo as recomendações do amo, foi ter à janela da dispensa. Estava aberta, Jorge galgoua, acendeu aí a sua lanterna furtaluz e, estendendo o pescoço, espiou para a sala de jantar, por cima da porta, pela qual justamente pouco antes fugira aquela.
O cocheiro não podia, donde estava, ver com quem altercava o doido, mas segundo o que lhe havia dito Gaspar, devia ser com Ambrosina.
A sala continuava quase às escuras.
No momento em que Leonardo ia lançarse sobre Alfredo, Jorge abriu de improviso a porta da dispensa e avançou resolutamente para ele, com um revólver em uma das mãos e a lanterna furtaluz na outra. O doido voltouse assustado, escondendo a faca nas costas.
— Dáme já desse ferro! bradoulhe o cocheiro.
Leonardo atirou humildemente a faca ao chão, e retraiuse. Jorge apanhoua, e perguntoulhe asperamente se ainda tinha alguma arma consigo.
O doido meneou afirmativamente a cabeça e, refilando os dentes, apontou para estes.
— Dessa arma não tenha eu medo! rosnou o cocheiro; mas revistemos sempre as algibeiras...
E começou a apalpar as roupas de Leonardo.
— Não me faças cócegas! gritou este, torcendose todo, a rir.
E fugiulhe das mãos.
— Tratemos agora da menina! disse aquele.
Alfredo saíra, afinal do seu esconderijo. Jorge chegoulhe a lanterna ao rosto, e olhouo com surpresa.
— O quê?! Pois era o senhor que cá estava, seu Alfredo? Como diabo me afirmou o patrão que era a D. Ambrosina?...
Alfredo engoliu a última saliva, que o medo lhe havia gelado na garganta, e explicou a situação com a voz ainda trêmula.
Um rumor lá fora chamou nesse momento a atenção de Jorge.
— Com os diabos, que lá se nos vai o doido!
Leonardo, com efeito, enquanto os dois conversavam, galgara a janela da dispensa e fugira pelo jardim.
Foi nessa ocasião que ele seguiu para onde estava Ambrosina.
Alfredo e o cocheiro, depois de certificados de que Leonardo não se havia escondido na chácara, apagaram o gás, fecharam a casa pelo melhor que puderam, e seguiram para a rua.
Por onde diabo teria tomado aquele maldito? dizia e repetia Jorge, a olhar para todos os lados; até que percebeu Leonardo na ocasião em que este surgia junto à mulher.
Jorge correu para lá, e Leonardo, mal o bispou, abriu num carreirão pela estrada, a fugir.
— Fique com ela! bradou o cocheiro a Alfredo; que eu vou na pista daquele danado!
E lançouse a perseguir o doido.
Dez minutos depois, voltava, coberto de suor.
— Escapounos! o demônio! Mas deixa estar que não as perdes, patife! O lugar dos doidos é no hospício!
E, voltandose para Ambrosina, que recuperava os sentidos:
— Ora, em que bonito estado deixou esta pobre criatura! Peste de um maluco!
E, praguejando cada vez mais, o cocheiro amparou Ambrosina nos braços.
— Pobre senhora! Tem os pés que são uma lástima!...
Resolveuse que iriam pernoitar em casa de Jorge. Ambrosina, por ser este o sítio mais perto, e Alfredo porque jurara aos seus deuses não largar àquela noite a companhia do cocheiro.
— Nada! que o doido podia encontrála ainda pela estrada!
Começou a chover.
Só meia hora depois, apareceu um carro e, depois de outra meia hora, chegavam os três à modesta habitação do cocheiro — uma casinha na Praia do Russell; porta e janela, pouca mobília, quartos acanhados.
Jorge era viúvo e tinha uma filha já moça, Laura, encanto da sua vida, e quem, nos arranjos da casa, ajudava a avozinha Benedita, mãe do cocheiro.
Apesar de pobre, a habitação era asseada e risonha. Tudo ali respirava paz.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.