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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Temos, passando da portaria ao claustro, uma escada de pedra à mão esquerda, para subirmos ao primeiro andar, e em frente toda a extensão do claustro. Prefiro começar a minha descrição pelo pavimento inferior. Deixemos, pois, a escada de pedra para subi-la mais tarde.

O claustro é vasto e todo cercado de arcaria que forma uma varanda imensa, aberta em torno de um pátio quadrangular.

No fundo dessa extensa varanda abrem-se diversas capelas com as suas competentes sacristias, representando igrejas em miniatura.

Seguiremos a ordem em que se acham as capelas do claustro, começando pelo lado direito à entrada da portaria.

A primeira capela é consagrada a Nossa Senhora dos Prazeres e de um trabalho muito bem acabado. Junto ao supedâneo desta linda capela está sepultado em uma cova com campa de mármore o benfeitor do convento, João Gonçalves Vale, o qual, a pedido do padre-mestre frei Joaquim de Santa Leocádia, concorrera com a despesa necessária para o ornato interior da capela e para a compra de paramentos.

A segunda é a capela da Porciúncula.

A terceira é a das Dores de Nossa Senhora, cuja imagem se acha cercada de sete quadros que recordam os sete passos da paixão de Cristo.

A quarta é a do Senhor da Cana Verde, e no seio dela acha-se o túmulo do príncipe D. João Carlos, que morreu a 4 de fevereiro de 1822, quando a princesa real, que devia ser logo depois a nossa primeira imperatriz, se retirou com ele, que tinha apenas onze meses de idade, para a fazenda de Santa Cruz, a fim de achar-se mais longe da cidade, onde a cada momento se esperava o choque dos partidos e o começo da luta entre os propugnadores da independência do Brasil e os inimigos desta.

A quinta é a da Sacra Família. Dentro desta capela estão guardados os túmulos que encerram os restos mortais dos príncipes D. Afonso e D. Pedro, esperanças do Brasil, que murcharam tão cedo.

A sexta é a do Senhor do Bonfim, aberta em frente da quadra em que se sepultam os religiosos. É no altar dessa capela que tem lugar o ofício de sepultura por eles.

A sétima é a do Nascimento de S. Francisco. Vêem-se sobre o altar diferentes imagens e figuras. O menino recém-nascido está deitado em um presépio, tendo ao lado seus pais de joelhos. No retábulo lêem-se, em um pequeno quadro, os seguintes versos, composição de frei S. Carlos:

Em Assis Belém se mostra Com assombrosos sinais: Qual Jesus, Francisco nasce Entre brutos animais.

A oitava capela é a de Morte de S. Francisco. Sobre o altar está a imagem do santo, deitado, com as mãos cruzadas no peito e cercado de religiosos, entre os quais se vê a madre Jacoba. Todas as figuras são de barro e coloridas. No retábulo há outro pequeno quadro com estes versos, compostos ainda por aquele mesmo poeta:

Adverte, não é Jesus,

É Francisco que aqui jaz,

A quem semelhante faz

Nascimento, vida e cruz.

A nona capela é consagrada a S. Joaquim.

A décima e última é a de Santana. Esta capela denomina-se o capítulo e é de todas a maior, estendendo-se em frente do altar um espaçoso salão. As paredes são ornadas com grandes quadros de diferentes santos em tela e com molduras douradas. No fundo do salão levanta-se a cadeira magistral. Aos lados mostram-se os bancos e assentos para os religiosos. A capela de Santana foi outrora a casa dos estudos, quando havia frades colegiais.

As dez graciosas capelas de que acabei de fazer uma simples menção já tiveram sua época de florescimento e de esplendor, em seguida a de um triste abandono, e agora, enfim, a de uma regeneração sem grande esperança de futuro, mas em todo o caso louvável.

Outrora o convento de S. Antônio, regurgitando de frades, não tinha altares de sobra na igreja para tão grande número de sacerdotes e, então, cada uma daquelas capelas era ou por devoção especial ou de preferência tomada por um ou alguns religiosos, e todos à porfia se esmeravam em ornar e aformosear suas capelas.

Veio depois o tempo sinistro da decadência. As celas começaram a mostrar-se desertas, a flama do zelo a apagar-se. As portas das capelas foram se trancando. As chaves enferrujaram-se. Os altares não brilharam mais à luz de festas solenes. A ruína apareceu, nascendo do abandono e do desânimo.

A solicitude e a devoção que despertam outra vez vão restaurando os altares estragados, substituindo os velhos por novos paramentos, e, deixem-me dizer, assim galvanizando aquele cadáver que resta das glórias do brilhantismo do passado. A tarefa é árdua, difícil e imensa. Não pode, porém, ser mais generosa nem mais nobre, por isso que toda a esperança de futuro para os frades capuchos do Brasil não vai além de vidas, das quais as mais novas já estão em meio, e deve apagar-se à beira da sepultura do último dos atuais frades.

(continua...)

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