Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Juliana tremia ouvindo confidencias feitas em gritos e inspiradas pelo vinho.
E no meio daquelle ruido e daquellas fallas immoraes,o nome de Juliana foi pronunciado ao som de risadas.
Acabavão de contar Juliana no numero das victimas de Jorge de Almeida.
Fábio levantou-se inflammadode colera, mas sentio-se preso nos braços de Gandida e de Juliana, que choravão desesperadamente.
Um dos exaltados convivas interpellou a Jorge de Almeida a respeito de Juliana.
A interpellação era uma infâmia.
Jorge, em vez de responder logo, soltou uma gargalhada indecente.
Os convivas instarão com decompassados gritos.
Jorge de Almeida obedeceu, fallou, e o que disse foi ainda mais infame.
Fábio fez um esforço violento, e deixando Juliana cahida semi-morta nos braços de sua mãi, abrio a porta, penetrou na sala do banquete, e avançando para Jorge de Almeida exclamou levantando o braço com evidente ameaça :
— Mentes, miseravel !...
Jorge de Almeida empunhou uma faca, e ia bradando :
— Repito...
Mas não poude acabar porque Fábio irritado imprimio-lhe no face o maior insulto que pôde um homem receber.
Jorge cambaleou e cahio atordoado no assoalho.
Vinte adversários levantárão-se para vingar a offensa recebida por Jorge de Almeida, mas ao mesmo tempo, a sala encheu-se de gente que acudio ao estrepito,e que conseguio impedir uma lucta desigual e terrivel.
XXVI.
O esquecimento de um grande insulto e de uma injuria vehemente pôde ser aconselhado por uma santa virtude ensinada por Jesus Christo, e então é digno da admiração dos homens, porque aquelle que sabe tanto perdoar se eleva pela sua humildade a uma altura que o aproxima do céo.
Mas também muitas vezes esse esquecimento é apenas a expressão do aviltamento e da miseria moral do homem corrompido pelos vicios; porque a corrupção mata o pundonor e o brio.
Jorge de Almeida não se atreveu a vingar-se da enorme affronta que recebera de Fábio ; a sua colera porém não foi desarmada pela virtude da humildade : elle não perdoou, teve medo.
Entretanto, era-lhe necessário salvar as apparencias, e suppoz salval-as, representando uma comedia que nem ao menos teve o merito da originalidade.
Fábio foi provocado a um duello, e uma hora depois a policia tinha já conhecimento do prazo e do logar do encontro, que assim ficou sem resultado, tornando-se impossivel o duello, esse crime que debaixo de certo ponto de vista pôde bem dizer-se um crime civilisado.
O pai de Jorge, temendo por seu filho unico, o pai da noiva deste receiando ver também compromettido o credito de sua filha, apressarão o casamento que fora adiado por alguns dias, e que se effectuou promptamente.
Assim, pois, uma familia honesta abrio o seio, e nella recebeu o homem indigno, o libertino que acabava de seduzir uma donzella e de tornal-a para sempre desgraçada.
Um pai que se ufanava de ser extremoso, entregara sua filha bella, innocente e pura, a um miserável que fora o algoz de outra mulher bella, innocente e pura.
Muitas e respeitáveis familias correrão a cumprimentar os noivos e a pedir as relações e a amizade de Jorge de Almeida.
As mais, as esposas, as donzellas estenderão suas mãos, e apertarão nellas a mão do mancebo corrompido e corruptor que trouxera para o leito nupcial, ainda fresca a lembrança de uma seducção infame.
Todos sorrião para Jorge de Almeida, todos o festejarão, todas as casas se abrirão para recebel-o, e ninguém se lembrou de pedir-lhe contas do seu crime.
E no emtanto Juliana, a victima de Jorge de Almeida, vivia escondida em triste solidão e gemia ferida pelo desprezo publico.
As sociedades a enxotavão do seu meio com a injuria, que nem mais procuravão disfarçar. Os pais e as mais tinhão recommendado ás suas filhas que fugissem da companhia de Juliana.
Os màncebos atrevião-se a olhal-a de um modo que equivalia a um insulto.
E a infeliz recuara diante dessa manifestação terrivel, e, não tornando mais a apparecer no mundo das festas e dos prazeres, escondia a sua vergonha no interior do lar domestico.
XXVII.
Juliana recebia o castigo de uma grave falta.
Uma sociedade moralisada, que se respeita e que se estima, não pôde receber a mulher que se deixou seduzir, pondo-a em contacto com as donzellas e com as senhoras honestas, cercandoas dos mesmos respeitos.
A distincção entre uma e outras é um justo premio devido á virtude.
Mas não pode haver seducção sem que haja seductor, e se a seducção é um crime, o seductor não é menos, ou ainda é mais criminoso do que a mulher seduzida.
Na seducção a seduzida é uma victima, o seductor é um algoz.
E entre uma victima e um algoz, a equidade, a generosidade e
a moral não podem hesitar.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.