Por José de Alencar (1872)
Agora, metido na roda, entre as galhofas dos rapazes, e com as explicações do visconde, o grelo da idéia lhe abrolhara no cérebro; percebeu do que se tratava, ainda mais dando com a cara amarrada do Bastos.
O amanuense tinha especial birra ao corretor. A emulação é achaque de que padecem os talentos. O empenho do Bastos em incumbir-se das encomendas de D. Paulina, de Guida e outras senhoras, despertara justo zelo no
amanuense, que tomava aquelas obsequiosidades por verdadeiras usurpações de suas ocupações privativas. Entendia o “homem serviçal”, que, dando-lhe uma sinecura, o governo lhe concedera privilégio exclusivo para obsequiar o próximo, e ninguém podia privá-lo dessa honra.
Em sua qualidade de animal daninho tem o homem um faro para vingança. Doutro modo não se explica o que passou na cachola do Benício:
- Cá pra mim é negócio decidido, respondeu impavidamente o amanuense. Esta manhã quando tive a honra de segurar o chapéu de sol para os noivos, bem me estava lembrando que amanhã tenho de visitar o meu amigo monsenhor. É bom a gente andar prevenido; e como eu é que hei de ser incumbido de arranjar os papéis na Conceição!...
- São histórias do Benício, atalhou o visconde metendo à bulha o amanuense. Que o maganão não pilha a moça, nem o dote, por essa fico eu, e se quiserem uma apostazinha...
Não obstante a confiança na sagacidade do Aljuba e sobretudo em sua avareza, que não havia de arriscar a aposta sem plena certeza de a ganhar, a balela do casamento da filha do banqueiro continuou a correr entre os convidados, e não se falava em outra coisa no salão, quando ali entrou Ricardo.
Todas as vistas fitaram-se nele procurando-lhe no semblante a ufania do triunfo; e tal é o poder da imaginação, que muitos a viram desdenhada em uma fisionomia onde os paradoxos do Nogueira haviam deixado traços bem expressivos de tédio e desgosto.
Notou Guida essa expressão de Ricardo, que distraidamente e sem precebê-la, sentara-se a seu lado.
- Sabe a novidade? perguntou a moça.
- Qual?
- Ainda não lhe deram os parabéns?
- Por que motivo?
- Deveras não sabe?
- Entrei agora mesmo na sala.
- Pois então, deve-me as alvíssaras. O senhor está para casar comigo.
- Não entendo! respondeu Ricardo fugindo ao gracejo.
- Parece-me que é bem claro. Depois do jantar não se tem falado aqui de outra coisa.
- Mas é uma indignidade! Exclamou o mancebo, mal contendo a revolta dos brios.
- Faça como eu! acudiu Guida sorrindo. Não se importe! A princípio também me incomodavam essas impertinências; agora estou habituada; e ainda agradeço quando não me dão por noivo algum bobo ou algum traste, como já tem sucedido.
- Mas eu não lhes dei o direito de se divertirem com meu nome!
- E dei-lhes eu acaso? tornou Guida. Tenha paciência; amanhã me inventarão outro noivo; e o senhor ficará descansado. Eu é que infelizmente não tenho quem me tire da berlinda.
Ditas estas palavras em tom que flutuava entre o motejo e a contrariedade, a filha do banqueiro ergueu-se para dirigirse ao piano, onde a chamara D. Clarinha.
XXII
Terça-feira seguinte, estava Ricardo como de costume em seu escritório.
Seriam dez horas passadas. Reinava na pequena sala, dividida a meio em dois cubículos por um tabique de pinho, um silêncio desanimador, sem dúvida propício à meditação, porém pouco prometedor a respeito de clientela.
Sentado à clássica mesa de vinhático inteiramente limpa de autos, Ricardo, trabalhador infatigável, escrevia desde as nove horas da manhã em que habitualmente chegava ao escritório.
Lembrara-se de fazer algumas traduções para distrair as horas enfadonhas do estéril plantão, nutrindo a esperança de tirar daí alguns parcos recursos com que fosse atamancando as necessidades.
Ricardo bem sentia que não tinha real vocação para a profissão forense; a aridez desses estudos, que os rábulas costumam amenizar com desbragadas verrinas, não conformava por certo à sua inteligência brilhante, colorida por uma imaginação de artista.
Mas o mancebo, não obstante, aceitava essa carreira como um dever, pela impossibilidade de escolher outra que lhe proporcionasse os meios de subsistência e os recursos para manter a sua família, que se achava em circunstâncias precárias.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.