Por José de Alencar (1875)
O José Bernardo, portanto, havia espalhado sua gente de modo a fazer com o seio do rio o cêrco da várzea, tomando as saídas por onde o gado podia evadir-se. Êsse cordão vivo supria os muros das coitadas e fechava um vasto âmbito, no qual os cavaleiros podiam correr um ou mais touros e gozar assim das emoções da caça!
Tomadas estas disposições, correu o vaqueiro do Bargado a prevenir seu patrão de que podiam dar comêço ao divertimento.
— Então, senhores?… O campo está seguro, diz o meu vaqueiro, exclamou Fragoso.
— Pronto! acudiu Daniel Ferro, que ardia por mostrar a valentia dos filhos de Inhamuns.
— O senhor capitão-mór dará o sinal, tornou Fragoso com um gesto de deferência.
O velho Campelo afirmou-se na sela, e sobraçando à direita a vara de ferrão, soltou o brado estridente do vaqueiro ao disparar, voz que traduz-se aproximadamente por esta interjeição:
— Ecou!…
Ao grito do capitão-mór, outros reboaram; e os seis cavaleiros arremessaram-se da ladeira abaixo no encalço do Dourado.
O touro barbatão respondera ao grito dos vaqueiros com um mugido manhoso e afastara-se à meia carreira, como para poupar as suas fôrças ou medir as do inimigo. De vez em quando voltava a cabeça para ver o avanço que levavam os cavaleiros.
As senhoras ficaram na eminência, guardadas pela escolta e acompanhadas do padre Teles, que viu com um suspiro afastarem-se os outros e lembrou-se com saudades dos tempos, em que na ribeira do Choró êle campeava os garrotes e novilhos barbatões, montando em pêlo no primeiro cavalo que apanhava dos magotes soltos pelo campo.
Padre Teles tinha um tanto da polpa dêsses padres sertanejos, de que houve tão grande cópia até 1840; sacerdotes por ofício, êles envergavam a batina como uma couraça; e lá se iam pelo interior à cata de aventuras. O capitão-mór, porém, era formalista e não admitia costumes profanos em seu capelão.
Também D. Genoveva, se não fosse o recato de seu sexo, de que o marido não a dispensava, ainda mais em presença de estranhos, tomaria parte na montearia, para que se julgava com ânimo e disposição. Era ela destemida cavaleira; e de-certo desempenhar-se-ia melhor da emprêsa do que o Ourém e o Correia, moradores da cidade, e não afeitos a êsses exercícios dos nossos campos.
—Vamos nós também divertir-nos, Flor, disse a dona, lançando o cavalo avante.
— Anda, Alina! exclamou a donzela, seguindo a mãe.
Padre Teles a pretêsto de acompanhar as senhoras, lá se foi também com elas a campear as novilhas que pastavam alíperto. A-pesar-de não ser êsse gado barbatão como o outro, todavia não era de todo manso, e às vezes a rês perseguida voltava-se para atirar uma marrada, que as destras cavaleiras evitavam no meio de risada e folgares.
Mais tímida, Alina deixara-se ficar na colina; e depois de alguma hesitação aproximou-se de Arnaldo, o qual ainda imóvel no mesmo lugar, seguia de longe a corrida com um olhar ávido e sôfrego.
— Não foi campear, Arnaldo? disse a moça à meia voz.
— Não, Alina! respondeu o sertanejo concisamente sem tirar os olhos da várzea.
— Eu sei a razão! tornou a órfã com uma reticência misteriosa.
Arnaldo olhou-a de través para surpreender-lhe no rosto o pensamento.
— Foi para ficar perto de mim. Não acertei? disse Alina com um sorriso de melancólica faceirice.
Arnaldo fechou-se e retorquiu em tom breve e esquivo:
— Não gosto destas caçadas. Campear é no largo, onde o boi acha mundo para fugir; e mão fechá-lo como num curral para ter o gôsto de o matar depois de cansado. Um vaqueiro não sofre isto. Aquí está a razão por que fiquei, Alina.
— Ah! eu sabia que não era por mim; disse-o brincando. A sra. D. Genoveva não me chama sua noiva, Arnaldo? É para zombar de mim!
Alina proferiu esta frase com o mesmo tom de faceira melancolia, e tão queixoso, que Arnaldo sentiu-se comovido.
— Não é de você, Alina, que zombam; mas de mim. Eu não sou vaqueiro; sou um filho dos matos, que não sabe entrar numa casa e viver nela. Minhas companheiras são as estrêlas do céu que me visitam à noite na malhada; e a jurutí que fez seu ninho na mesma árvore em que durmo. Seu noivo deve ser outro. Eu lhe darei um que a mereça.
— Já tenho, disse Alina.
— Qual? perguntou Arnaldo surpreso.
— Não é da terra, não. Esta lá perto das estrêlas, suas companheiras: é o céu.
Arnaldo não atendeu à resposta da moça. Um acidente que ocorrera alí perto, na falda da colina, acabava de surpreendê-lo.
D. Genoveva e a filha continuavam a perseguir as reses que lhes ficavam próximas, e padre Teles, um tanto emancipado,com a ausência do capitão-mór, acompanhando-as nesse folguedo, empunhava um ramo de cauaçú que êle quebrara para fazer as vezes de aguilhada.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.