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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Tende paciência por um instante, Sr. Álvaro, disse ela voltando-se; conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinião sobre aquele lindo bracelete... Ainda não o vistes? 

E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ela tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Álvaro e Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir o seu efeito. 

A emoção que sentiram os dois moços ouvindo o que dissera Cecília é impossível de descrever. 

Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecília, a enganara para obrigá-la a aceitar o presente de Álvaro; o olhar que sua prima lhe lançara afastando-se com seu pai, lho tinha revelado. 

Quanto a Álvaro, não compreendia coisa alguma, senão que Cecília tinha-lhe dado a maior prova de seu desprezo e indiferença; mas não podia adivinhar a razão por que ela associara Isabel a esse ato que devia ser um segredo entre ambos. 

Ficando sós em face um do outro, não ousavam levantar os olhos; a vista de Álvaro estava cravada no bracelete; Isabel, trêmula, sentia o olhar do moço, e sofria como se um anel de ferro cingisse o seu braço mimoso. 

Assim estiveram tempo esquecido; por fim Álvaro desejoso de ter uma explicação, animou-se a romper o silêncio: 

— Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou ele suplicante.

— Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando. 

— Como? 

— Cecília fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai para me fazer aceitá-lo; pois se eu soubesse... 

— Que vinha de minha mão? Não aceitaríeis? 

— Nunca!... exclamou a moça com fogo. 

Álvaro admirou-se do tom com que Isabel proferiu aquela palavra; parecia dar um juramento.

— Qual o motivo? perguntou depois de um momento. 

A moça fitou nele os seus grandes olhos negros; havia tanto amor e tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Álvaro o compreendesse, teria a resposta à sua pergunta. Mas o cavalheiro não compreendeu nem o olhar nem o silêncio de Isabel: adivinhava que havia nisto um mistério, e desejava esclarecê-lo. 

Aproximou-se da moça e disse-lhe com a vez doce e triste: 

— Perdoai-me. D. Isabel; sei que vou cometer uma indiscrição; mas o que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes escarnecida; também eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar com isso, seja o falarmos francamente um ao outro? Isabel estremeceu. 

— Falai: eu vos escuto, Sr. Álvaro. 

— Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste bracelete, não é verdade? 

— Sim! balbuciou a moça. 

— Dizei-me pois como ele passou do lugar onde estava, ao vosso braço. Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até que ponto zombam de mim. 

— Já vos confessei o que sabia. Cecília enganou-me. 

— E a razão que teve ela para enganar-vos não atinais? 

— Oh! se atino... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do coração. 

— Dizei-ma então. Eu vo-lo peço e suplico! 

Álvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça implorava dela a palavra que devia explicar-lhe o ato de Cecília, e revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que ele havia dado. 

Conhecendo esta razão talvez pudesse desculpar-se, talvez pudesse merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instância a Isabel que lhe declarasse o motivo por que Cecília a havia enganado. 

A moça vendo Álvaro a seus pés, suplicante, tinha-se tornado lívida; seu coração batia com tanta violência que via-se o peito de seu vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar ardente caia sobre o moço e o fascinava. 

— Falai! dizia Álvaro; falai! Sois boa; e não me deixeis sofrer assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o sossego. 

— E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça. 

— Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me anunciardes, será bem-vinda pelos vossos lábios; é sempre um consolo receber-se a má nova da voz amiga! Isabel ia falar, mas parou estremecendo: 

— Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo! 

— E por que não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim um amigo.

— Se fôsseis!... 

E os olhos de Isabel cintilaram. 

— Acabai! 

— Se me fôsseis amigo, me havíeis de perdoar. 

— Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizeste vós para que vos eu perdoe? disse Álvaro admirado. 

A moca teve medo do que havia dito; cobriu o rosto com as mãos. 

(continua...)

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