Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Estudai a expressão de seus olhos; seus olhares são vagos, rápidos, às vezes langorosos... é belo vê-la olhar assim...
Melancólica e distraída, seus antigos prazeres a afadigam; esqueceu-se deles... tem na mente um desejo novo...
Louquinha que amava as festas com seu ruído e bulício; que corria pelos prados; que brincava com as companheiras saltando, gritando, zombando; agora se esconde em seu quarto para chorar sem motiva, e depois, no jardim, fica uma hora parada defronte de uma flor...
Isso, e ainda muito mais que não será possível descrever completamente nunca, é a história da madrugada do amor, que todas as que foram moças gozaram, e que as que o não são devem gozar ainda.
Celina começava a experimentar todos esses fenômenos. A noite de seus anos rasgara, enfim, o véu da dúvida... No fim do canto do mancebo pobre ela havia compreendido que já o amava muito; que dentro do seu coração esse amor brotara e crescera sem que fosse sentido... Cândido era amado.
Mas por que se tinha ele retirado antes da terminação do baile? por que não aparecera desde então no “Céu cor-de-rosa”?
O amor de Celina começava com tormentos. Porque também é regra que no amor uma dúvida é um tormento, uma suspeita é veneno.
Com ansiedade esperou a “Bela Órfã” pela primeira noite de serão... devia vêlo... Cândido, se a amava, não podia faltar... havia de vir por força...
Gastou o dobro do tempo que costumava, em seu toucador. Tinha vontade de parecer ao homem que amava a mais bela de todas as mulheres.
Chegou a hora do serão. Vieram pouco a pouco chegando todos aqueles que costumavam freqüentar o “Céu cor-de-rosa”.
Celina não podia arrancar os olhos da porta da entrada; por três vezes já, tinha ido à janela sob diferentes pretextos.
Apresentou-se Henrique... algum tempo depois apareceu Salustiano.
Os sinos tocaram nove horas da noite. Cândido não havia chegado.
Celina não pôde conter um forte movimento de impaciência e desagrado.
– Meu Deus! D. Celina, exclamou Felícia, o que é que hoje você tem?
– Parece que esperava por alguém que não chegou, disse Mariquinhas; ela não tem tirado os olhos da porta da sala,
– Oh! não! respondeu a “Bela Órfã”; é que hoje não estou boa... sinto um calor que parece febre; preciso respirar ar puro e livre. E dirigiu-se de novo à janela... ninguém vinha. Esperou cerca de dez minutos; mas sempre debalde.
A pobre moça sentiu então uma dor nova para ela; apertou-se-lhe o coração, como se uma mão de ferro a estivesse comprimindo com os dedos; e não podendo suportar o ruído que na sala reinava; parecendo-lhe as risadas que ouvia, os gracejos que se diziam, as músicas que se cantavam, e os olhares que lhe lançava Salustiano, um insulto feito à sua dor, aproveitou um momento de distração geral, e saindo da sala sem ser sentida, subiu para seu quarto, e atirando-se no leito, começou a chorar.
No entanto, Henrique havia oferecido o braço a Mariana, e passeavam conversando.
Chegaram-se ambos para uma janela, e vendo-se a sós Henrique falou à bela viúva:
– Minha senhora, eu precisava falar-lhe a sós sobre um objeto de grande importância para nós ambos, julgará oportuno este momento?...
– Posso eu dar uma sentença sobre causa que não conheço? perguntou gracejando Mariana.
– Não haverá gracejo nem puerilidade no que eu devo dizer, tornou Henrique com tom sério.
– Mas é que eu não sei sobre o que devemos tratar.
Oh!... senhora!... será possível que não adivinhe qual será o objeto de que lhe quero falar?... não lho diz o coração há seis anos?...
– Para aqueles que se amam, disse Mariana abaixando a cabeça e a voz, todos os momentos e todos os lugares são oportunos e propícios.
– Então eu falo; e depois que eu falar, é que realmente ouvirei uma sentença.
Mariana levantou os olhos e viu a expressão apaixonada e séria do semblante de Henrique.
– Eu não lembrarei o passado, disse o mancebo: é a história de uma luta desesperada entre o dever e o amor, que eu não quero recordar, porque ainda me causa terríveis angústias...
– Oh! lembremo-lo sempre!... a sua memória é doce porque não desdoura... foi um amor do espírito.
– Embora... mas se quiser, eu o lembrarei somente para dizer que esse amor que resistiu ao dever, que não morreu na ausência, é um amor que deve ser bem caro, senhora!...
– E tem ele sido mal pago, senhor?... nessa luta entre o dever e o amor, sofreria menos a mulher, para quem o amor é sempre mais ardente, e o dever era dobradamente maior?...
– E agora, senhora?... agora, que não há mais barreiras levantadas diante desse terno sentimento?...
– Agora?...
– Sim, agora?...
– Aceite como resposta, senhor, a mesma pergunta que acaba de fazer-me.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.