Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Porém, isto é quase amar uma idealidade... uma sombra, que, quando pensamos tocar com o dedo, desaparece a nossos olhos!... isto é viver em um sonho eterno...
— Oh!... exclamou Raquel apertando a mão de Honorina, esse homem estudou bem a mulher de quem queria ser amado!... ele foi direito ao ponto mais fraco... atacou... e venceu!
— É porque eu sou uma mulher bem fraca, não é assim?...
— Não: é porque tu tens uma imaginação muito ardente, um coração muito cheio de fogo!... é porque tu terias amado a Torquato, como Eleonora, e a Camões, como Catarina de Ataíde!... e esse homem, que não tem certamente podido ser poeta para vir ajoelhar-se a teus pés, com sua lira nos braços, a oferecer-te a glória de um renome; que não tem certamente podido ser um herói para com os louros na fronte deslumbrar teus olhos e cativar teu espírito... esse homem, sagaz, sem dúvida, apelou para o mistério, chamou a seu favor o que achou que podia parecer-te maravilhoso... apresentou-se diante de ti coberto com um véu para te fazer desejar rompê-lo... trouxe uma centelha em seus olhos... atirou-a sobre a tua imaginação... ateou-a... venceu... é amado!...
— E tu, Raquel, terias resistido, não é assim?...
A pergunta pareceu contrariar a Raquel, que, depois de hesitar um momento, como se abafasse um gemido, respondeu:
— Honorina, não se trata de mim agora.
— Sim... sim, eu sei... terias resistido; porque tu não és como eu... tu és prudente.
— Oh!... e de que vale a prudência, Honorina?...
— A experiência e sábios conselhos de teu pai te armaram de uma fortaleza que nenhuma outra teve ainda... teu coração para amor está forrado de aço... tu só és sensível à amizade...
— Pelo amor de Deus, Honorina, não fales de mim agora!...
— Tu podes sofrer sem estremecer o olhar atrevido de um homem fixado uma hora inteira sobre teu rosto... tu zombas do poder dos olhos... tu és surda para as palavras de amor... a influência de um homem não chega nunca a teu espírito!... tu és feliz... bem feliz!...
— Honorina!... Honorina... tu ignoras o mal que me estás fazendo!...
— Eu te invejo, Raquel!...
— Desgraçada!... tu não sabes o que dizes!...
— Oh! eu me lembro bem daquelas frias palavras que uma vez me disseste!... eu as decorei: porque elas me espantaram! porque seu pensamento, enunciado por uma mulher, me pareceu um milagre... tu disseste...
— Não... não... Honorina, não as repita...
— Tu disseste: — Amor é uma vã mentira!... amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a imaginação nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... amor não é mais que a flor de um só dia, que se abre de manhã, e antes da noite está murcha!...
— Perdão!... perdão!... Honorina; pode ser que eu me tivesse enganado!...
Honorina olhou espantada para Raquel, ouvindo suas últimas palavras.
— Raquel! exclamou a moça, tu me deves um segredo!
O semblante de Raquel tornou-se pálido, semelhante ao de uma moribunda: seus olhos se fecharam, como para não deixar que os de Honorina fossem nos seus beber o arcano que ela escondia; e, parecendo haver tomado uma repentina resolução, disse tremendo:
— Honorina, eu também amo.
— Amas?... amas?... e a quem?...
— Tu vais corar, Honorina!...
— Dize, dize...
— A um homem casado.
— Desgraçada!... exclamou Honorina abraçando sua amiga.
Sorriso amargo e irônico se derramou pelos lábios de Raquel, ouvindo a exclamação da moça.
Raquel havia mentido.
XIX
Noite no mar
O vapor das seis horas da tarde do dia seguinte trouxe Hugo de Mendonça e o seu guardalivros Félix, Jorge e Otávio, que todos vinham, como tratado estava, tomar parte no agradável passatempo em que se projetava empregar a noite. Venâncio, Manuel e Brás-mimoso se tinham deixado ficar em Niterói, como homens a quem não importavam negócios, ou de negócios careciam.
As senhoras haviam de sua parte passado o dia o mais monótono que é possível: Lucrécia, obrigada a permanecer em casa com seus hóspedes, deixava de empregar junto de Honorina horas que ela considerava por demais preciosas. Honorina e Raquel, tristes e taciturnas, bordavam sem descansar ao pé de Ema, que gastou o dia inteiro em falar contra o que chamava loucuras próprias somente do gênio extravagante de Hugo. Ela não compreendia como um homem de juízo podia expor a sua filha e a si mesmo a todos os riscos de um passeio noturno e marítimo; exasperava-se, lembrando-se de que seu filho já não atendia aos conselhos que lhe dava, e temia muito que nem mesmo suas próprias orações pudessem salvar Honorina da vida de desatinos, por onde começava a levá-la seu imprudente pai.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.