Por Lima Barreto (1915)
As casas tinham um aspecto fúnebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lúgubre.
A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer sentir nela tão forte aspecto funéreo.
Foi vindo até ao Campo; aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do General Albernaz. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de jantar e jantara com o general, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o comandante de Quaresma, o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante.
Bustamante era um comandante ativo, mas dentro do quartel. Não havia quem como ele se interessasse pelos livros, pela boa caligrafia com que eram escritos os livros mestres, as relações de mostra, os mapas de companhia e outros documentos. Com auxílio deles, a organização do seu batalhão era irrepreensível; e, para não deixar de vigiar a escrituração, aparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo.
Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, ele logo perguntou ao major: - Quantas deserções?
- Até hoje, nove, disse Quaresma.
Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu:
- Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
- Fazem muito bem... Ora! disse o almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia vice-almirante. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, ele não comandaria nem uma divisão. Uma iniqüidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por não ter nunca comandado, nessa matéria ele podia despender toda uma energia moça.
- O almirante não deve falar assim... A pátria está logo abaixo da humanidade.
- Meu caro tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
- Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.
- Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas.
Bustamente, o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a fúria de Caldas, que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos favoritos brancos. O tenente respondeu:
- Muito, almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de felicidade e evolução moral.
- Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas.
- Eu também penso assim, acrescentou Albernaz.
- Isto há de sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.
O major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquelas contestações, ao contrário dos seus congêneres de seita, não se agastou. Ele era magro e chupado, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nasal, agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários, depois de ouvir todos, falou com unção:
- Houve já um esboço: a Idade Média.
Ninguém ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma. E a sua afirmação fez calar todos, embora no íntimo duvidosos. É uma curiosa Idade Média, essa de elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que ano? Se a gente diz: “No tempo de Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos” - o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja.” “São Luís”, diremos logo nós, “quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas.” Objeta o fiel: “Você não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a decadência”... Citam-se as epidemias de moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as ladroagens à mão armada dos barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desaparecido.
Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. O almirante criticava severamente o governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros à toa; na sua opinião, já devia ter feito todo o esforço para ocupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue. Bustamente não tinha opinião assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma improficuidade patente. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso, e veio a fazê-lo assim:
- Mas nós reconhecemos Humaitá, e por pouco!
(continua...)
BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.