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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Houve quem dissesse que isso estava no programa de Bentes, mas não era verdade. É certo que Lucrécio já tinha avisado do que ia acontecer a Bogoloff, convidando-o até a vencer os honorários médicos que Liberato piedosamente oferecia; mas dizer que tal proeza estava no manifesto de Bentes, é inverdade que não se sabe bem como foi gerada.

O programa de Bentes era até lírico, cheio de utopias e a candidez de suas intenções não se quadrava com certas atitudes de seus adeptos. Do que havia necessidade era impedir que os cidadãos dissessem nos jornais, pelo menos, que não queriam o paraíso que ele prometia. Seria bem fácil convencer o país com os processos mais comuns de baionetas e garruchas; mas tal não quiseram e tentavam uma catequese em que os incidentes como esse de Liberato não foram os únicos.

As urnas deviam manifestar-se; e, como sempre nas suas manifestações havia sangue, tratou-se de lhe aumentar a quantidade em relação à espontaneidade do candidato e da popularidade do partido que o apoiava.

Se os seus oposicionistas recebiam manifestações da cidade inteira, Bentes era aclamado muito decentemente por grande caudas de caleças de enterro.

Riam-se os filósofos de um esforço tão inutilmente dispendido e não esqueciam nunca de lembrar o célebre pensamento de La Rochefoucauld: “ A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.

É difícil de dizer todas as belas coisas que Bentes prometeu no seu programa. Leu-o num dos mais luxuosos teatros da cidade que, por sinal, nesse dia para nele entrar não se pagavam bilhetes. Fuas disse, ao dia seguinte, que era uma peça magistral, valendo ouro os seus conceitos e as suas arrojadas tentativas de engrandecimento do país.

Se valiam ouro nem todos podiam garantir, mas que prometiam despesas avultadas é fácil de afirmar.

Um dos seus propósitos mais altos era melhorar a navegação interior do Brasil. O seu interesse era pela bacia do São Francisco. Notava Bentes que os seus rios serviam cinco Estados do Brasil, interessando alguns mais; e, entretanto não tinham merecido até ali a atenção dos poderes públicos. Notava ainda que nessa portentosa bacia vivia uma população enérgica, ativa, corajosa e o governo tinha o dever de auxiliá-la. O seu primeiro cuidado, se fosse governo, seria torná-lo navegável da foz à nascente, destruindo a dinamites e outros explosivos a cachoeira de Paulo Afonso e outros obstáculos que lhe impediam o livre aproveitamento pelos barcos.

O outro seu alto propósito tendia a homenagear a mulher brasileira, esse exemplo extraordinário de mãe, dizia o manifesto; e havia de fazer, quando chefe do executivo, distribuição gratuita de brinquedos às crianças, desde que tivessem mães — continuava a dizer o manifesto.

Não eram idéias comuns as que aventou e nem tão pouco inviáveis; o que havia nelas era um altruísmo exagerado que muito desgostou os seus adeptos. Fuas dissera mesmo que era o seu programa, um programa de ideólogo; se não fora a experiência que já tinha a opinião conservadora de sua capacidade de administrador, as idéias do general deviam pô-la de sobreaviso.

Afirmou com uma coragem de inovador que nunca as ações consultariam a economia política e muito menos as finanças; que o país era soberbamente rico e não devia obedecer a essas tiranias espirituais criadas nos caducos e pobres países da Europa.

Fuas ainda disse no seu memorável artigo que essa opinião era de sábio, e, para ela, deviam voltar a sua atenção os eruditos rotineiros, adstritos às coisas misantrópicas do Adam Smith da Wealth of Nations. Citou vários exemplos negando que a riqueza fosse o trabalho acumulado.

A esfuziante profundeza do manifesto foi recebida pelo país inteiro boquiaberto e Numa, na Câmara, defendeu-o dos ataques da oposição ignara. A sua defesa foi lógica e consistiu unicamente em pedir que esperassem a execução para se obter um critério seguro da certeza das proposições avançadas por Bentes.

D. Edgarda, mulher de Numa, não andou muito contente uns dias; ela os passou recolhida à sua biblioteca a ler e a pensar.

Os livros estavam fora dos seus lugares nas estantes; viviam pelas mesas, pelo chão, abertos, com arcas à vista; e um tal aspecto era mais o da biblioteca de um sábio em desesperada polêmica que o da de uma senhora que faz plácidas leituras.



(continua...)

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