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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Mas o seu bom humor transformou-se em tédio logo que ele deu com a figura enfurecida de Ernestina que, a um canto do quarto, parecia colada à poltrona por uma tremenda raiva. E, corno em resposta à presença dela:

- Não tive remédio senão vir à casa, porque tenho de ir hoje a uma soirée com o Aguiar.- Sim, sim, respondeu Leonília; antes, porém de mais nada, dize-me quem é aquela senhora e qual é aqui a sua posição.

Teobaldo, parado em meio da sala, de pernas abertas, começou a coçar a cabeça, sem encontrar uma resposta. Por esse tempo, o Coruja, que não podia ver ninguém na situação em que estava Ernestina, aproximou-se da outra e disse:

- Aquela senhora está aqui por minha causa...

- Você não se enxerga! exclamou a mal agradecida, sem compreender a intenção benévola do moço. - Estar aqui por causa dele! Olha que pretensão! Verdade é que...

- Basta! interrompeu Teobaldo. E, voltando-se para a outra. Ela está aqui por mim.- É tua amante? perguntou Leonília.

- Não.

- Tua parenta?

- Também não. É uma amiga e veio a meu convite passar aqui alguns dias.

Cavalheiro, como sempre, não quis, dizendo a verdade, cobrir de ridículo uma pobre mulher, cujo crime único era amá-lo até à impertinência; Leonília, porém, que não estudara pelo mesmo código de civilidade, já não pensava desse modo e acrescentou com ironia:

- Ah - Veio a tomar ares.. . Estimo que aproveite isso, mas é bom que lhe recomendes seja um pouco mais cortes com as pessoas que te procuram.

- Deixa-te disso! respondeu Teobaldo.

- Não, insistiu Leonília. - Que tu protejas aquela mulher compreende-se, porque só tens recebido de suas mãos protestos e mais protestos de amor; eu, porém, não estou no mesmo caso, dela só recebi as mais significativas provas de grosseria e de atrevimento.

- Sim, sim, mas acabemos com isto! replicou Teobaldo.

Ernestina ergueu-se e foi ter com ele:

- Exijo que repilas aquele insulto.

- Ora!

- Não repeles?

- Ninguém aqui te insultou, filha!

- És tão bom como ela!

- Mau!

- És um infame!

- Pior!

- És um miserável!

- Cale-se!

- Colocar-me nesta posição ridícula...

- Olhe que me faz perder a paciência!...

- Pensei que estivesse na casa de um cavalheiro e vejo que me sucede justamente o contrário...

- Ah! o meu procedimento é imperdoável, não há dúvida!

- Com certeza! Um homem que se presa não coloca uma mulher nesta posição!...

- Ah! Insiste? Além de impertinente é atrevida? Pois então ouça: A senhora, se se acha nesta posição, é porque assim o quis; eu, há três dias, que emprego todos os meios e modos para a afastar de mim, e a senhora cada vez mais a agarrar-se-me que nem uma ostra! E fique sabendo agora que, se não fossem os meus escrúpulos de homem delicado, há muito que a teria enxotado daqui ou encarregado alguém de despejá-la lá fora!

Ernestina ouviu tudo isto sem um gesto, nem um movimento. Quando Teobaldo acabou estava mais lívida que um defunto e os lábios tremiam-lhe tanto quanto lhe arfava o peito; a outra ainda mais lhe aumentava a agonia lançando-lhe olhares de desprezo.

- Coitada! disse afinal Leonília.

Ernestina deu um arranco na direção do quarto, naturalmente com a intenção de preparar-se para sair, mas em meio do caminho cambaleou e, soltando um grito agudo, desfaleceu nos braços do Coruja, que a acudira de pronto.

- Agora, entram os nervos em cena!... observou Leonília em ar de caçoada.

Coruja conduziu a desfalecida para a cama de Teobaldo, enquanto este, Lufando de impaciência, andava de um lado para outro da sala, muito agitado, as mãos nas algibeiras, o olhar carrancudo.

- Que maçada! resmungava de vez em quando. Que maçada!

- É pô-la na rua! aconselhou Leonília.

- Ora, deixe-me você também! respondeu ele furioso,- Recebeste a minha carta!

- Recebi.

- Não ficaste zangado?

- Não.

- E é dessa forma que me amas?

- É.

- Pois olha que eu não sou como aquela desgraçada, Babes?

Teobaldo sacudiu os ombros com indiferença.

- Confesso que te havia escrito urna outra carta, mas não quis dar-te o gostinho de recebê-la.

- E eu a encontrei no teu quarto, dentro de um livro.

- Pois leste?...

- Sim, e afianço-te que ela me causou ainda pior efeito que a outra, a cínica.

- Isso quer dizer..

- Que estimei a notícia da tua viagem.

- Obrigado, exclamou Leonília. Não devia esperar outra coisa de ti! És um miserável! Ah! mas descansa que não te perseguirei!

E, rabanando a cauda do vestido, saiu como um raio.

- Passe bem! disse Teobaldo, sem lhe voltar o rosto, e continuou a passear de um para o outro lado da sala, gesticulando enfurecido a cada grito histérico que partia da sua alcova. - Sabino! gritou ele.

Apareceu o velho Caetano:

(continua...)

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