Por Aluísio Azevedo (1897)
— Atende! atende, desgraçado! não te lembras que, para deixares por uma vez Ambrosina, terás de abdicar de todos os deslumbramentos do seu amor? Deixála, quer dizer nunca mais sentir o doce contacto daqueles braços esculturais; deixála, é perder o gosto saboroso daqueles beijos quentes e vermelhos; é nunca mais adormecer ao calor daquela divina carne e ao aroma daquele cabelo negro! Queres deixála, miserável? deixaa, mas engatilha ao mesmo tempo o teu revólver, porque não resistirás ao desespero de perdêla! E, enquanto estiveres lá debaixo da terra, no pavoroso degredo do teu aniquilamento, ela, cá fora, feliz e radiante, será cortejada por uma aluvião desenfreada de apaixonados!
Gabriel estremeceu, sacudiu a cabeça, procurando enxotar os pensamentos, como quem enxota um bando de corvos, e saltou da cama.
Defronte dele ergueuse o padrasto.
— Então?... disse este. Estás disposto a partir?
— Quando quiseres... respondeu Gabriel, abaixando os olhos.
— Iremos pelo primeiro paquete que sair para a Europa.
E Gaspar afastouse, para tratar da viagem.
Entretanto, na véspera desse dia, enquanto aqueles dois fugiam pela noite a toda a disparada da casa de Ambrosina, esta, depois de alguns passos pela rua de Laranjeiras, encostarase prostrada às grades de uma chácara.
Não sentia coragem para caminhar, tal era o seu estado. Tinha a cabeça oprimida por um estranho peso que a obrigava a fechar de vez em quando os olhos. As pernas negavamse a sustentála e os seus pés sangravam; todo o corpo lhe pedia repouso, mas não se animava ela a sentarse no batente de alguma porta, receosa de ceder ao cansaço e adormecer na rua. Olhava então aflitivamente para a estrada, e a desesperança de qualquer recurso, que tirasse daquela situação, arrancavalhe lágrimas de desespero.
Quando passava alguém, a infeliz escondia o rosto, envergonhada.
Um trabalhador, que vinha a cantalorar com uma voz grossa de vinho, abeirouse dela e quis abordála.
— Olha cá! disse, limpando as barbas nas costas da mão.
— Não me toque! bradou ela.
E ferrou no homem tão decisivo olhar, que ele abaixou a cabeça, com um gesto de cão batido, e arredouse resmungando:
— Desculpe! supunha que era uma barca...
Ambrosina rilhou os dentes, de raiva, e desatou a soluçar.
Que mal havia ela feito para sofrer tanto!... Por que a sorte, a fatalidade, ou lá o que fosse, a perseguia daquele modo?... Bem sombria devia ser a estrela que velou o berço!...
— No fim de contas, se não sou mais honesta, dizia consigo mesmo, só ao acaso devemos criminar, porque foi ele que me tirou dos braços de meu marido para me atirar aos do meu amante... E será culpa minha não poder eu amar a nenhum homem?... Achoos ridículos a todos eles! E haverá, com efeito, cousa mais aborrecida do que ouvir protestos de amor de Gabriel, por exemplo? quem pode gostar daquilo? Um homem deve ser um homem e deve saber gozar!
E Ambrosina sonhavase ao lado de um libertino milionário, que a embriagava com todas as transcendências da riqueza e do prazer; sentia sede das sensações fortes do jogo e das orgias monstruosas, em que há gosto de sangue no fundo das últimas taças. Queria gozos criminosos, lascívias perseguidas por lei; sentia necessidade de ruído, de desordem, de escândalo; queria que se falasse nela, que a apontassem, que os burgueses estalassem de raiva, ao vêla passar, petulantemente linda, satânica, cruel, no seu carro puxado a quatro! Sentia vontade que a julgassem capaz de todos os crimes! E assim mesmo haveriam de ir depor a seus pés a fortuna, a honra, o talento, porque ela era bela e possuía todos os segredos do amor sensual. Os mancebos, ao abrir da puberdade, queimariam a carne em flor nas brasas do seu sangue; os homens lançariam às chamas dos seus punchs a fortuna dos filhos e as jóias da mulher; e os velhos, trêmulos e decrépitos, cheios de condecorações e flanelas, haveriam de arrastarse até aonde ela estivesse para lhe suplicarem, por amor de Deus e em troca de tudo o que possuíssem alguns instantes de luxúria! E ela então orgulhosa e fria sob o diadema de seus vícios, escarneceria de todos eles e de todos os preceitos estabelecidos pela moral. E, enquanto as mães chorassem, os filhos se perdessem, e os homens se assassinassem na vergonha e no opróbrio, ela, mulher sem coração, a Vênus de gelo! beberia champanha e comeria morangos em calda de rum!
E por um natural fenômeno de atavismo, Ambrosina reproduzia, com as modificações
correspondentes às suas circunstâncias individuais, todos os sonhos de ambição e todos os delírios de grandeza que encheram a vida inteira de seu pai.
Era o comendador Moscoso quem estava ali a sonhar, em plena mocidade, não como ambicioso caixeiro de taverna, mas como uma vaidosa rapariga de coração maleducado.
Ela, porém foi interrompida nos seus incipientes devaneios por um fulminante berro, que lhe gelou nas veias o sangue e lhe sumiu a luz dos olhos.
Era o louco que vinha de novo ao seu encalço.
Ambrosina soltou um grito e, perdendo os sentidos, cambaleou um momento, e desabou afinal sobre a calçada.
XXV
A FLOR DO RUSSELL
Jorge, o cocheiro de Gaspar, era um homem membrudo e de fisionomia áspera, tipo mais puxado a espanhol que a brasileiro.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.