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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Infelizmente naquela noite recolheu-se mais tarde que de costume, e quando chegou já não era tempo de fazer coisa alguma. Toda a família, passou a noite na maior ansiedade, desvanecidas de certa hora em diante as esperanças de ver chegar o Leonardo a cada momento. Ninguém duvidava mais que alguma coisa tivesse sucedido ao Leonardo, e nos quadros medonhos que cada qual imaginava, a figura do major Vidigal aparecia sempre em primeiro plano; ninguém também duvidava que no quer que fosse que houvesse sucedido ao Leonardo, o major teria por força parte ativa e importante, senão principal.

Assim ao amanhecer do dia seguinte o primeiro lugar onde mandaram saber dele foi na casa da guarda. Mas, com surpresa geral, ele não se achava nela, nem sabiam notícias suas; procurou-se em diversos outros pontos, e nada de novo, nem novas nem mandados. Por lembrança de Vidinha foram procurar a comadre, e informaram-na de todo o ocorrido: a pobre mulher, que tudo ignorava, pôs as mãos na cabeça:

— Aquele rapaz nasceu em mau dia, disse ela, ou então aquilo é coisa que lhe fizeram; do contrário não pode ser...

E pôs-se logo a caminho a procurar o afilhado.

Na comadre estavam fundadas toda as esperanças; ninguém duvidava que apenas ela se pusesse na rua prontamente se saberia o destino do Leonardo. Enganaram-se todos, porque nem a própria comadre foi capaz de dar com ele, por tão bom caminho o tinha levado o major. Passaram muitos dias na mais completa ignorância a respeito do seu fim; e começaram desde então a aparecer suspeitas de que ele próprio teria talvez interesse em ocultar-se, e de que era essa a causa por que ainda o não haviam descoberto. Estas suspeitas tomaram vulto, e uma certa indignação começou a aparecer em toda a família, contra semelhante proceder. A indignação cresceu e tomou repentinamente proporções de ódio intenso, até da parte das próprias duas velhas.

Realmente, a ser verdade o que pensavam, não haveria ingratidão mais negra do que a do Leonardo para com aquela que tão benignamente o acolhera. Nas invectivas a cada momento dirigidas contra ele, Vidinha tomava sempre o primeiro lugar, e tinha razão para isso; além de ter contra ele as razões que tinham todos os outros, tinha ainda o despeito do amor ofendido. Em certos corações o amor é assim, tudo quanto tem de terno, de dedicado, de fiel, desaparece depois de certas provas, e transforma-se num incurável ódio.

Uma coisa singular notara Vidinha desde que fora à ucharia, e é que não se passava depois disto um só dia em que ela não visse pelo menos duas vezes o toma-largura. Tinha-o ela mostrado à família, e já todos o conheciam. A princípio isso incomodou-a, e tanto mais que ele não passava uma só vez que lhe não tirasse o chapéu com ar risonho: parecia-lhe semelhante coisa uma prova de desabrida falta de vergonha. Mais tarde começou a suspeitar que aquela passagem constante e aqueles cumprimentos deviam por força ter alguma explicação.

Aconteceu que uma das velhas, a mãe de Vidinha, confessasse não ter achado o toma-largura mal-apessoado, e esta idéia passou a toda a família. Um dia uma das velhas achando-se na janela com Vidinha, na ocasião em que passava o toma-largura, disse entre os dentes, e como que indiferentemente:

— Se fosse comigo, bem sabia eu cá o que havia de fazer...

Vidinha, se bem que não pedisse explicação daquele dito, não deixou contudo de dar-lhe atenção e de cismar nele por algum tempo.

No dia seguinte a mesma velha chamou-a para a janela à hora do dia antecedente; e o toma-largura passou como sempre, e fez o seu cumprimento. A velha disse nessa ocasião, como completando o seu pensamento da véspera:

— Ora, eu pregava um mono ao tal Leonardo... e então este que era bem pregado, por ser ao mesmo tempo aos dois, a ele e a ela.

Lendo na intimidade do pensamento da velha, com a nossa liberdade de contador de histórias, diremos ao leitor, que o não tiver adivinhado, que aquele-elareferia-se à moça do caldo.

Dada esta explicação, os menos perspicazes entenderão sem dúvida em que consistia o mono que a velha pregaria ao Leonardo.

Vidinha, que nada tinha de pouco inteligente, compreendeu tudo às mil maravilhas, e com tanto mais facilidade, digamo-lo aos leitores, quanto talvez que o pensamento da velha correspondesse a seus próprios pensamentos. Repetiram-se depois disto mais algumas indiretas da parte da velha, e Vidinha chegou finalmente a explicações.

Pouparemos aos leitores certos detalhes, e diremos que o resultado de tudo aquilo foi ver-se, poucos dias depois, o toma-largura em casa de Vidinha fazendo uma visita à família!!...

As visitas continuaram, e pela vizinhança começou a ouvir-se um rumor que tinha tanto de malévolo como de verdadeiro.

Estavam as coisas neste pé. A paz tinha sido restituída à família. Não sei quem propôs que se solenizasse o restabelecimento do sossego e as novas venturas com uma súcia para fora da cidade. Efetuou-se semelhante pensamento.



(continua...)

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