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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Sem tremer, sem corar e sem empallidecer, Juliana resistia aos olhos perscrutadores dos homens, que parecião querer penetrar em seu coração e ler ahi um segredo cruel e sinistro.

E apezar daquelles sorrisos, daquellas vistas dos olhos insolentes, apezar do murmurar injurioso que ás vezes sorprendia de passagem, a pobre moça dansava, ria, folgava como d'antes, trazendo no rosto o céo e na alma o inferno.

Em duas noites de reunião, porém, teve emfim Juliana de enfraquecer.

Em uma dellas, era um baile, ostentava a pobre moça toda a sua alegria artificial, e no momento em que acabava de levantar-se para aceitar o braço de um cavalheiro com quem ia dansar, vio de subito apparecer na sala Jorge de Almeida, que fixou sobre ella um olhar cheio de cruelissima ousadia.

Juliana estremeceu violentamente, recuou um passo, deixou-se cahir sentada na cadeira de que acabava de levantar-se, e desculpou-se com o seu cavalheiro, dizendo-lhe a tremer :

— Não posso... é impossivel.

Esta impressão tão forte e profunda, que recebera Juliana ao ver entrar na sala Jorge de Almeida, foi interpretada pelos curiosos e observadores de um modo muito maligno para a infeliz moça, quo logo depois retirou-se do baile.

Passados alguns dias, em outra e muito numerosa e brilhante reunião, depois de algumas horas dedicadas á dansa e á musica, estava Juliana com algumas jovens, não tão bellas, mas tão vaidosas como ella, descançando e conversando em uma pequena sala que communicava com o toucador.

Fallavão sobre musica.

Juliana sinha sido muito applaudida pouco antes cantando um romance, que pela primeira vez fora ouvido.

Uma das moças mordêra-se de inveja por que não pudera agradar tanto quanto esperava, executando uma aria já cem vezes cantada no theatro italiano.

Depois de longo conversar, a invejosa, cançada de ouvir elogios ao romance de Juliana, disse sorrindo ironicamente :

— Sei um romance muito mais bonito do que esse que cantou D. Juliana.

— E qual é ?...

— Não tem nome ainda; posso porém repetir uma das tres estrophes de que consta a sua poesia.

— É novo ?...

— Para quasi todos, mas talvez que D. Juliana já o conheça, pois que é tão apaixonada de romances.

— Conta-o.

E a invejosa cantou baixinho :

Esta lua tão formosa,

Esta noite deleitosa,

Este céo de lactea cor,

Este silencio profundo.

Este repouso do mundo,

É tudo encanto de amor.

Um gemido pungente interrompeu o canto da invejosa. Juliana acabava de desmaiar.

XXV.

A miseria victima de um infame seductor não poude combater por mais tempo contra a sociedade que a repellia e que no emtanto continuava a abrir o seio ao seu algoz.

Voltando daquelle ultimo baile em que desmaiara ouvindo um canto injurioso, Juliana adoeceu gravemente.

Durante oito dias luctou com a morte, venceu-a emíim e talvez a pezar seu ; ficou-lhe porém uma profunda e acerba melancolia, contra a qual não houve recurso que aproveitasse. Os medicos aconselharão distracções. Juliana não se prestou mais a voltar aos bailes e ás reuniões, e apenas condescendeu em passeiar fora da cidade com sua mãi e Fábio.

Os passeios repetião-se inutilmente e sem o menor proveito : a melancolia de Juliana era invencivel, e fazia tremer a Cândida e ao seu sempre fiel e extremoso amante. Um dia Fábio chegou á casa de Cândida ainda mais commovido do que nos anteriores.

— Que tens, Fábio ?... ha alguma novidade ?... perguntou Cândida.

— Sim, mas é preciso não deixal-a perceber a Juliana.

— Então...

— Jorge de Almeiada casa-se amanhã.

— Silencio, Fábio! pelo amor de Deus silencio!

Dahi a pouco partião em um carro Fábio, Cândida e Juliana, para um dos bellos arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro, e apeando-se em um excellente hotel, que não é necessario nomear, seguirão a pé passeiando durante uma hora, no fim da qual voltarão para jantar.

Fábio e as duas senhoras acabavão apenas de entrar para a sala que havião tomado, quando em outra que a essa íicava contígua, soarão as vozes alegres e ruidosas de muitos mancebos, e no meio dellas, bem distincta entre todas, a de Jorge de Almeida.

Um caixeiro do hotel, que veio receber as ordens de Fábio, descobrio o segredo que se occultava a Juliana, declarando que Jorge de Almeida vinha dar a alguns amigos o seu ultimo jantar de moço solteiro, e despedir-se ruidosamente de sua vida de extravagante.

Juliana pareceu ouvir aquella noticia sem abalo nem commoção ; pedio porém que se trancasse a porta da sala.

O jantar de Jorge de Almeida transformou-se bem depressa em uma bacchanal, a que só faltavão, para ser mais completa, essas mulheres loucas e perdidas cujas relações vergonhosas poucos homens se atrevem a confessar.

Os vinhos exaltavão os convivas, que suppunhão fallar do amor fallando de devassidão e de crimes.

(continua...)

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