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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Mas como sabe? perguntou o visconde da Aljuba, que até aí se tinha contentado em ouvir.

- É verdade. Você não foi do passeio. 

- Eu lhe digo o como sei melhor do que todos que lá foram. Conversando com D. Guilhermina, antes do jantar, falei a respeito dessa novidade que os senhores trouxeram. 

- Eu não! repetiu meia dúzia de vozes.

- Creio que foi o Sr. visconde! 

- Se fui eu, do que não me lembro, é que alguém me disse, respondeu sem desconcertar-se o homúnculo. 

- Quer saber o que respondeu D. Guilhermina? – “Qual, Lima, não acredite! Deixe-os falar! A Guida nem pensa nisso. Pois não vê que se houvesse alguma coisa, ele não trataria o Ricardo com tanta familiaridade e sem acanhamento, como eu trato o Fábio, por exemplo?” 

- Esta última razão, acrescentou sonsamente o visconde, não me tinha lembrado. É de arromba! Está decidido que não há nada absolu... 

Não acabou o Aljuba de debulhar tranqüilamente as sílabas do seu advérbio, porque foi de repente arrebatado à terra, e depois de uma ascensão curta e rápida se achou sentado no jardim, sem compreender ainda como isso acontecera. A causa do fenômeno ali estava em carne e osso. Era o Sr. Benício que, passando casualmente pela próxima alameda, a farejar no jardim o que não descobrira na sala, isto é, “uma pessoa a obsequiar”, bispou de longe a figurinha do visconde aprumada sobre a base. 

- O Sr. visconde de pé!... exclamou o Benício. 

O incomparável obsequiador possuiu-se de um horror que talvez não lhe causasse o visconde, se em vez de ter-se direito, como a a natureza o fizera, pusesse as mãos na areia, e fazendo cauda d’aba da casaca, imitasse o gambá, de que tinha seus traços fisionômicos. 

Em dois saltos o homem serviçal galgou a escadaria de pedra, arrebatou da sala uma cadeira, e arremessando-se com ela ao jardim, foi cair precisamente no meio da roda. Aí fincando com a mão esquerda a cadeira na areia, com a direita empunhou o exíguo visconde pelo pescoço, como o faria ao gargalo de um moringue, e assentou-o em cheio na cadeira . 

Esta rápida operação foi acompanhada da seguinte jaculatória: 

- V. Exª. de pé, Sr. visconde! E eu sem ver! Oh! desculpe-me, excelentíssimo. Aqui tem V. Exª. uma cadeira! Mas não se incomode, excelentíssimo, por quem é! Deixe, eu mesmo o sento! Pra que ter este trabalho! Assim; esteja a gosto; não precisa mais nada? 

- Nada, nada! obrigado, muito obrigado, Sr. Benício, mil vezes obrigado! pôde afinal responder o visconde, fincado na cadeira, e desdobrando-se como um couro amarrotado. 

- Aqui está quem pode dar boas informações! disse um da roda. 

- Oh! o Benício deve saber. Pois era ele quem os acompanhava, acudiu o outro. 

- Não vêem como está bem penteadinho! tornou o primeiro alisando as falripas do amanuense.

- O quê? O quê, homem? Dizia no entanto o Benício. 

- Estávamos aqui numa dúvida de que só você pode nos tirar. 

- Vamos a ver! Para o que é servir aos amigos, eu estou pronto sempre.

- O que acha o senhor? A Guidinha está deveras mordida?

- Heim?   

- Deu corda ao bicho? 

- Ai, que os amigos querem se divertir à minha custa! Interveio o visconde: 

- Não seja desconfiado, homem. Estes senhores desejam saber se pelo que observou esta manhã no passeio, especialmente quando acompanhou a D. Guida, percebeu que ela tinha sua quedinha pelo tal Ricardo.

- Ah! é isso?... 

O homem serviçal não tinha observado coisa alguma, nem era capaz de semelhante exerção de espírito. Acompanhara os dois moços absorvido na satisfação de obsequiar dois mortais a um tempo; e isto bastava para ocupar toda a atividade moral de que era capaz o seu indivíduo. É certo que lá num refolho escuro daquele miolo animal despontava um grelo de idéia. O homem tinha uma bronca intuição de estar obsequiando os dois moços, não só com a sombra do chapéu de sol, mas com a sombra da cabeleira. 

(continua...)

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