Por José de Alencar (1875)
Os dois mancebos trocaram um olhar rápido. Fragoso adivinhou que tinha em Arnaldo um inimigo. Arnaldo conheceu que fôra compreendido: e isso causou-lhe íntima satisfação. Na sua lealdade, estimava que o adversário estivesse prevenido de seu ódio, para que não lhe imputasse uma perfídia. Essa primeira advertência, êle pretendia dá-la, ainda mais fraca, logo que chegasse o momento de executar a sua resolução.
— Que dizes, Arnaldo? És capaz de tirar o feitiço ao Dourado?
— Não sei, sr. capitão-mór; ainda não lhe dei uma corrida: porisso não posso avaliar. Mas até hoje não encontrei boi que deitasse poeira no Corisco, disse o sertanejo singelamente e alisando a clina do cardão.
— Pois afianço-lhes eu, senhores, que o Dourado vai dar a sua última carreira, exclamou Marcos Fragoso, brandindo a vara de ferrão com galhardia. Terei a honra de oferecer-lhes ao almôço uma costela de herói.
— Eu prefiro o lombo, disse o capelão.
— O principal é outro porém, continuou o mancebo exaltando-se. Entre os mimos de noivado que tenho de oferecer breve à formosa das formosas, figura um par de sandálias mouriscas de veludo, cravejadas de pérolas; e aquí neste momento, diante destas damas, do sr. capitão-mór e de quantos me ouvem, os quais todos tomo por testemunhas, faço votos de tirar as solas das sandálias do couro do Dourado, com a minha própria mão!
— Não é mal lembrado, observou Ourém. Naturalmente foi de algum boi corredor como êste que o gigante fez as suas botas de sete léguas, e as fadas tiraram os seus chapins. Os coturnos de Mercúrio deviam ser do mesmo couro.
Marcos Fragoso referindo-se ao mimo de noivado, que destinava à formosa das formosas, dirigiu o olhar tão claramente a D. Flor, que todos compreenderam a alusão, exceto a donzela, que ainda estava distraída a ver o barbatão, e o capitão-mór que não atendendo ao gesto expressivo, deu às palavras do dono do Bargado outro e mui diferente sentido.
Entendeu êle que Marcos Fragoso já tinha ajustado casamento com outra moça. Êste fato o contrariou; mas porisso mesmo, bem longe de demovê-lo do projeto de casar o mancebo com D. Flor, mais o afirmou nessa resolução. O seu orgulho não sofria que o homem por êle escolhido para marido de sua filha, fosse capaz de recusar tão grande honra e favor, e preferir outra aliança ainda mesmo quando já estivera tratada.
Outro sentimento porém, e tão forte como êste, reagiu no fazendeiro. Foi o desgôsto pela jactância do Marcos Fragoso dando como certa a sua vitória sôbre o barbatão. O senhor de Quixeramobim sentia-se profundamente ofendido com essa presunção, que de algum modo o amesquinhava na pessoa daquele boi, que era como que uma glória dos seus vastos domínios, e cuja fama fazia de algum modo parte de sua importância.
— Ora! ora!… exclamou o capitão-mór com um grosso riso de mofa. Eu me obrigo a assar no dedo a carne que o senhor tirar do Dourado; mas também, se não pegar o barbatão, o que é certo, há de ter paciência que lhe mande um mamote para tirar a sola das tais chinelas. Está ouvindo?
— Topo, sr. capitão-mór, retorquiu Fragoso, picado ao vivo pela zombaria do fazendeiro; e juro-lhe que hei de fazer hoje melhor montearia do que pensa vossa senhoria.
Arnaldo, cuja atenção estava alerta, notou a inflexão particular com que o mancebo proferira as últimas palavras, e surpreendeu-lhe o olhar irônico lançado ao capitão-mór.
Também Agrela tinha observado êste pormenor; mas o atribuira a leve ressentimento causado pelo motejo do fazendeiro.
Não se imagina o esfôrço que desde o encontro das duas cavalgadas fazia Arnaldo para não precipitar-se contra Frgoso, quando êste aproximava-se de D. Flor e lhe dirigia os seus redimentos corteses ou fitava nela os olhos namorados.
Nunca êle tinha sofrido as dôres, que então o trespassavam, nem pensara que homem as pudesse curtir.
IV – O sorubim
As vaquejadas do gado bravio, ou montearias como ainda as chamavam à moda portuguesa e clássica, pouca diferença tinham quanto ao modo das que se fazem ainda agora no sertão, durante o inverno e depois.
Naquele tempo é certo que o gado barbatão multiplicava-se com prodigiosa rapidez; e os vastos campos incultos, bem como as florestas ainda virgens, ofereciam às manadas selvagens refúgios impenetráveis.
Daí provinham essas famosas correrias tão celebradas nas cantigas sertanejas, e nas quais os vaqueiros gastavam semanas e meses à caça de um boi mocambeiro, que êles perseguiam com uma tenacidade incansável, menos pelo interêsse, do que por satisfação de seus brios de campeadores.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.