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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– E agora? prosseguiu o apaixonado mancebo; – agora que nenhuma consideração digna de respeitar-se opõe-se ao meu amor; agora que eu não me envergonho declarando-o à mulher que tanto pode sobre mim; agora que eu a ouço todos os dias dizer que me ama, há de vir um homem, que até hoje desprezei, ostentar a meus olhos o poder que exerce sobre ela?... isto não é uma tentação abominável?... dize Carlos, dize, isto não é uma tentação capaz de perder-me para sempre?

Os olhos de Henrique flamejavam.

– O que queres dizer?... exclamou Carlos.

– Quero dizer, respondeu Henrique tremendo, que ontem à noite eu vi a mulher que adoro, levada pelo braço desse homem, pálida, abatida, trêmula como uma criminosa; e ele, arrogante, soberbo, terrível e feroz como um algoz; quero dizer que de então até agora eu tenho sonhado com um punhal... com a desonra...

– Insensato! bradou Carlos.

– Mais do que isso!

– Compreendes bem todo o sentido das palavras que pronunciaste?..

– Perfeitamente.

– Serás capaz de repeti-las?...

– Sem dúvida.

– Henrique, disse Carlos com voz triste e grave; falas com o teu amigo, responde pois seriamente. Pensaste já uma só vez em realizar esse pensamento abominável?...

Henrique hesitou.

– Esse pensamento é um crime, tornou Carlos, mas eu sou teu amigo para to perdoar; responde pois, pensaste já uma só vez em realizá-lo?.

Henrique empalideceu como um moribundo, e disse:

– Já... esta noite.

– Estás quase perdido! exclamou dolorosamente o amigo. a Henrique, escutando esse grito da amizade, atirou-se no sofá chorando desabridamente.

Carlos sentou-se, e refletiu durante muito tempo; o médico procurava um remédio para o seu doente; e o doente tinha medo daquele médico, que sempre se havia oposto ao seu amor.

No fim de meia hora, Carlos chegou-se para junto do amigo, e tocando-lhe no ombro, disse:

– Sê homem.

Henrique levantou a cabeça.

– Tenho pensado bem, continuou aquele; não vejo razão para tão grande dor.

– Como? perguntou Henrique.

– A bela viúva te ama.

O mancebo suspirou, e disse:

– E aquele homem?...

– É um vil... despreza-o...

– Era só isso o que tinhas para me dizer?...

– Não.

– Que mais então?

– Cumpre que tudo isto tenha um termo; e quanto mais cedo, melhor.

– Que devo fazer?... eu não sei nada... desvairo e choro.

– Pois bem: irás ao “Céu cor-de-rosa”.

– Quando?...

– Hoje não; estás agitado demais. Irás ao primeiro serão.

– E depois?...

– Terás uma conferência com tua amada, e positivamente oferecer-lhe-ás a tua mão.

– E finalmente?... exclamou Henrique.

– Pedi-la-ás em casamento ao velho Anacleto.

– Tu mo aconselhas?... – bradou o amante abraçando com força a Carlos – tu mo aconselhas?...

– Sim! sim! respondeu este.

E depois continuou falando consigo mesmo:

– Dos males o menor.

CAPÍTULO XXII

UM SERÃO SEM ELE

SE O OLHAR do observador pudesse chegar ao fundo do coração humano, esquadrinhar todos os seus escaninhos, arrasar seus segredos mais ocultos, ler nele como em um livro; teria, é verdade, muito de que horrorizar-se, muito de que espantar-se com a hipocrisia e malvadeza da humanidade; em compensação porém acharia um encanto indizível, examinando o coração de uma moça que começa a amar pela primeira vez.

Porque, se doçura imensa se goza já nessas rápidas e passageiras traiçõezinhas, que fazem ao pudor de uma virgem os suspiros que por entre os lábios escapam, e os olhares que com mal comprimido fogo dardejam os olhos; em que mar de inocência, de amor angélico, de candura e de graças se não banharia o pensamento do observador, penetrando no coração da virgem cristã?!

Uma vida nova começa com o primeiro dia de amor. A aurora desse dia rubra com o pejo da moça, revela um mistério que ainda se não compreendia a noite passada.

De então por diante todos os pensamentos, todos os desejos, os brilhantes arabescos da imaginação, os sonhos, que a alma sonha acordada, o futuro, os risos, o pranto e a vida da virgem estão presos por correntes de rosas ao mistério que se revelou.

Foi o grito da natureza que soou, e que repercutiu no coração da donzela.

Mas a virgem cristã teve a educação da pureza, e tem o pudor da mulher. Desde que concebeu a idéia do amor, desde que a sentiu, ouvindo o grito da natureza, corou de si mesma.

Por que cora?... por que esconde um sentimento que a natureza inspira?... por que cora?... perguntai-lhe. Ela responderá com voz quase sumida – não sei, – há de corar mil vezes mais, respondendo.

E a virgem que não corasse por mais formosa que fosse, seria como uma flor sem perfumes, ou uma alma sem pensamentos.

Mas a virgem pretende em vão esconder o amor que amanheceu no seu coração. Ela o esconde, e ele se revela, como ainda o perfume que escapa da flor, e ainda o pensamento que transpira da alma.

Observai a moça que começa a amar. Tudo é novo nela: uma revolução se operou em seu caráter e em suas ações; o seu físico mesmo se ressente; ela se torna mais encantadora.

(continua...)

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