Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Raquel devorou rapidamente as poucas palavras escritas nesse papel, e entregou-o de novo a Honorina com mão visivelmente trêmula.
— Portanto, continuou esta, o moço loiro era ele!
— Sim... sim... era ele... eu o deveria ter previsto!...
Honorina abafou um suspiro.
— E a sempre-viva?... perguntou Raquel.
— Ei-la aqui! disse Honorina abrindo a outra mão.
— Tu a guardaste?!... e então foi o mesmo que responder eu também te amo!...
— Oh!... não me olhes assim Raquel, não me olhes com esses olhos tão ardentes, se não queres fazer-me abaixar os meus, e fechar-me a boca!...
— Enfim... tu guardaste a sempre-viva, Honorina?
— Não... não fui eu!... escuta. Acabando de ler essas palavras, que aí vês escritas, confesso que hesitei um momento; mas depois... eu dei um passo para a janela... estendi o meu braço... eu ia... eu devia deitar fora a sempre-viva, não é assim, Raquel?...
— Sim... sim...
— Mas... soprava uma branda aragem... o favônio da manhã, Raquel!... eu vi que cedendo a seu sopro... a sempre-viva rolou sobre a janela até cair a meus pés!...
— E depois... tu a guardaste?...
— Oh! Raquel! aquele zéfiro matutino tão fresco, tão doce, me pareceu então enviado pelo céu!... tu sabes, tens dito mil vezes, que eu tenho uma imaginação de louca, que à força de uma organização toda inflamável e de uma educação recebida na solidão, longe do mundo e dos homens, meu pensamento não se acomoda com o gelo das realidades e vive do fogo das quimeras; pois bem! será mais uma quimera; mas naquele instante eu pensei que o zéfiro que fazia rolar a flor para meu quarto, era como a mão do destino, que me arrastava para aquele homem! nos meus delírios... na exacerbação em que me achava, Raquel, eu contemplei a sempreviva, que tinha tombado a meus pés, e sem ter ânimo para lançá-la fora... temendo mesmo cometer um sacrilégio, se o fizesse, eu disse, desculpando-me a mim mesma: — Oh!... ainda bem que não fui eu... foi o teu sopro, meu Deus!...
— O sopro de Deus!... balbuciou Raquel.
— O sopro de Deus!... sim... o sopro de Deus!...
— E, portanto, ele cantava ainda agora um pensamento que tu só podias compreender!... — Mas Raquel... Raquel, como é que esse homem ouviu o que eu murmurei baixinho escondida no meu quarto?... pois então ele está também em toda a parte, assim como se veste de todos os semblantes?...
— Quem sabe... talvez ele estivesse mesmo de longe... talvez ele visse rolar a sua flor à força do zéfiro... e então pensasse também, como tu pensaste em um sopro de Deus!
— Mas podem acaso ter duas almas, ao mesmo tempo, um só e igual pensamento?...
Raquel respondeu com voz sumida e melancólica:
— Quando se amam, Honorina; porque já não há dúvida que tu amas...
— Oh! Raquel!... eu tenho medo de o pensar!...
— Como tu és feliz, Honorina!... disse docemente Raquel.
— E ele?... e ele? fala-me tu dele, Raquel.
— Minha bela vaidosa, que queres, pois, que eu diga?
— Se tu pudesses dizer-me, Raquel; se tu o soubesses!... é que há uma eterna pergunta no meu coração, e uma dúvida cruel dentro do meu espírito!... quem é ele?... quem é esse homem?...
— Posso eu sabê-lo?
— Será um moço ou um velho?... será um belo jovem ou um homem que faça medo?... qual é o seu rosto? qual a sua voz? quais os seus cabelos?...
— Pois duvidas que seja o moço loiro, Honorina?
— Sim, Raquel, ele foi o moço loiro de alguns momentos!... eu tenho ainda no meu espírito aquela graciosa cabeça... eu sinto ainda o fogo ardente de seus olhos... eu vejo, Raquel, eu vejo sempre aquele triste sorriso, que ele derramava em seus lábios... soa sempre em meus ouvidos, ainda mais docemente que o seu canto desta noite, aquela voz suave e comovida, com que ele dizia — eu amo!... muito!... como ninguém amou ainda!...
— E então, que queres tu mais, linda ambiciosa?...
— Raquel, Raquel, eu tenho medo, que assim como foi uma mentira aquela cabeça ruiva de ridículo cabeleireiro, assim como foi uma máscara ilusória aquela cabeça hirta de selvagem marinheiro, eu tenho medo, Raquel, de ver esvair-se como um sonho a minha mais bela ilusão... eu tenho medo de que aquele engraçado semblante de mancebo seja ainda um semblante emprestado, de que seus belos cabelos loiros sejam ainda uma pérfida cabeleira!...
Raquel não pôde deixar de sorrir-se do inocente receio de sua amiga.
— Sim... tu te estás rindo de minhas loucuras... perdoa-me, perdoa-me; porque eu estou talvez a ponto de ir ser bem desgraçada...
— Tu, Honorina, desgraçada?... e por quê?...
— Pois já te não lembras do que outrora me dizias?... Raquel, desgraçada; porque eu penso que já amo.
— Mas quando sabes que és amada?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.