Por Aluísio Azevedo (1891)
— Ah! exclamou Ângelo, retraindo-se.
Na laje funerária estava escrito "Alzira".
— Aqui jaz o que dela resta... segredou o velho.
E depois de um silencio, acrescentou:—Levanta a lousa...
— Profanar uma sepultura!... Eu?... protestou Ângelo, recuando. Não! Nunca!
— Assim é preciso! Obedece!
— Meu pai! ... — Obedece!
O presbítero hesitou ainda.
— Obedece, ou eu te amaldiçoarei para sempre! insistiu Ozéas.
Ângelo abaixou a cabeça e começou a levantar com o alvião a pedra sepulcral.
Conseguiu-o no fim de algum esforço.
— Agora, tornou o velho, quando viu a tumba descoberta, tira com a enxada o que está lá dentro.
O pároco voltou o rosto, exclamando:
— Oh, não! não! por amor de Deus!
Ozéas tomou a enxada, e retirou com ela uma caveira de dentro da sepultura. Limpou-a ao hábito e levou-a até aos olhos do discípulo, dizendo:
— Vê! Vê bem!...
— Uma caveira!
— Sim! Uma caveira! É tudo que resta da beleza da tua Alzira!... a terra comeu-lhe os olhos, o nariz, a boca, as faces cor-de-rosa... Só ficaram os dentes, para se rirem de ti, louco!
Ângelo tomou a caveira entre as mãos, e ficou a contemplá-la, abstrato e mudo.
Ozéas chegou-se mais para ele e disse-lhe, avizinhando a boca do seu ouvido e abafando a voz como quem conspira:
— Vê bem!... É uma caveira vulgar... confunde-se com todas as outras!...
Foram-se-lhe os encantos... foram-se os cabelos com os seus perfumes sensuais, os lábios com os seus sorrisos sedutores, os olhos com as suas chamas de amor!...
— Meu Deus! soluçou Ângelo.
— Restam apenas ossos... insistiu Ozéas. É tudo que dela resta neste mundo!... O mais que suponhas que exista, o mais que vejas nos teus sonhos libertinos, é loucura! Compreende bem, Ângelo! — Loucura!
— Meu Deus! exclamou o moço, deixando cair a caveira dentro do túmulo, e sentindo fugir-lhe a luz dos Olhos. Meu Deus, valei-me.
E baqueou no chão, abraçando-se à lápide.
Ozéas precipitou-se sobre ele, para socorrê-lo.
— Ângelo! chamou. Animo! animo, meu filho!
O pároco não deu acordo de si.
E o pobre velho apalpou-lhe o rosto e o coração.
— Perdeu os sentidos! disse aflito. Valha-me Deus! Valha-me Deus! Como lhe hei de valer? Se eu tivesse ao menos um pouco de água. A sua fronte escalda de febre!
E correu os olhos em torno, desesperado por ver somente a morte em volta do seu desespero.
— Ah! exclamou com uma idéia. Na capela! Talvez encontre o guarda! ...
E procurando estugar os seus cansados passos de ancião, afastou-se deixando Ângelo abraçado à lousa de Alzira.
Ângelo ergueu a cabeça ao fim de algum tempo e contraiu-se todo, ajoelhando-se na terra. Todo ele tremia.
Aos seus olhos desvairados, um terrível espetáculo se patenteada naquele instante.
Alzira surgia da cova, lentamente. Vinha toda de branco, no seu longo roupão funerário, em que ele a vira estendida no seu leito de morta, quando, louco de amor, a estreitara nos braços. Tinha os cabelos soltos sobre as espáduas, os olhos repreensivos e tristes, a boca entreaberta por um sorriso amargo, mostrando a embaciada pérola dos dentes.
— Ah! gritou o pároco, fitando-a.
E um singular diálogo travou-se entre os dois:
— Para que vieste profanar esta sepultura?... perguntou o branco espectro de Alzira.
Ângelo respondeu, sempre de joelhos e sem despregar o solhos dela:
— Para me convencer de que não és mais do que vil despojo! Para me convencer de que és pó e lodo! ...
— E que lucraste com isso?...
— A razão, porque tu me enlouqueces... Tu és a minha loucura, sedutor demônio!
— Loucura! E conheces, por acaso, alguma cousa no mundo que não seja delírio e loucura?... O que é a tua virtude senão loucura?... o que é a tua ciência?... o que é a tua religião?... Tudo isso é insânia!... Tudo isso é a febre dos doidos!... é o desvairar dos loucos!...
Ângelo arrastou-se para ela, exclamando suplicante:
— Então não me deixes viver outra vida senão esta em que eu te tenho ao meu lado, ao alcance dos meus lábios!... Leva-me, como nas outras noites, para os teus palácios encantados, para as tuas grutas misteriosas, leva-me para onde quiseres. Eu serei o teu pajem! o teu amante! o teu donzel!
— É tarde! replicou Alzira, desviando-se dele, sem fugir de onde estava!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.