Por Aluísio Azevedo (1897)
Alfredo não caiu por terra, fulminado de terror, só porque o guardalouça e a parede o entalavam pelos ombros. Fechou os olhos e, cedendo a um rebate mais forte dos intestinos, resignouse à morte, procurando conciliar uma idéia religiosa.
XXIV
A ALMA DO COMENDADOR
Médico Misterioso, ao chegar defronte de casa, apeouse da boléia, abriu a porta, chamou o criado e recomendoulhe que recolhesse o carro à cocheira.
Eram dez horas da noite, e o tempo, até aí de urna transparência admirável, começava a fazerse cor de chumbo.
Gabriel, atirado nas almofadas do carro, dormia profundamente. O padrasto tomouo nos ombros, e carregou com ele para o quarto.
O rapaz não dava acordo de si. Gaspar estendeuo na cama, e ficou algum tempo a olhálo, com uma expressão de profunda tristeza. Depois, sacudiu a cabeça resignadamente, e deulhe um beijo na fronte.
— Pobre criança!... dizia consigo o médico; para que haverias tu de encontrar, logo na entrada do caminho, aquela mulher perversa e egoísta?... Antes fosses pobre e desprotegido!... estarias trabalhando para ganhar a vida, e o suor que te corresse do rosto não seria este suor úmido e orgíaco, que agora te enregela. Antes fosses bem pobre! Compreenderias talvez a necessidade de cultivar a tua inteligência, que esperdiças, como esperdiças o teu dinheiro... Amaldiçoada fortuna, que a ambos nos desgraçou!
E Gaspar, enxugando as lágrimas, principiou a mudar a roupa do enteado, com a solicitude de uma mãe extremosa. Descalçouo, e procurou chamarlhe o sangue a sola dos pés; arrumoulhe na testa um lenço borrifado com algumas gotas de amoníaco, e, depois de agasalhálo bem, fechou a porta do quarto, passou ao escritório e assentouse à sua mesa de trabalho com um livro defronte de si.
Gabriel, ao abrir os olhos no dia seguinte, o primeiro pensamento que formulou foi todo para Ambrosina. Os acontecimentos da véspera apareciamlhe agora no espírito como reminiscências de fatos revistos através das camadas nebulosas do tempo.
Muitos lhe tinham fugido inteiramente da memória, de envolta com os vapores da embriaguez; outros permaneciam no momento de acordarmos. A sinistra figura de Leonardo desenhavase de um modo fantástico; aquele espectro hirsuto e desvairado, lançando em torno de si olhares de fera e empunhando uma faca, parecia um produto de pesadelo. E Gabriel, com a imaginação, via Ambrosina crivada de feridas, a debaterse e a pedir socorro nas garras do louco, que a arrastava pelos cabelos e começava a devorarlhe o corpo a dentadas, como havia tentado na horrível noite do casamento.
Gabriel, sacudido por essas idéias, sentia as fontes estalarem de febre.
Mas, entre todas as duvidosas reminiscências da véspera, se destacava um fato, gravado a fogo, era a cena do caramanchão. Esse não tinha sombras esfumadas, nem contornos duvidosos; estava ali, nu e cru, em toda a brutal nitidez da realidade.
Não havia para onde fugir! Era uma afronta verdadeira e positiva, que reclamava dos brios de Gabriel decisão pronta e enérgica.
Com que tristeza, com que dor, com que sacrifício d’alma, não teve o desgraçado de chegar a esta conclusão inevitável: — Abandonar por uma vez Ambrosina?!... empurrar com o pé tudo o que ele até aí mais amara, mais loucamente estremecera! fugir daquilo que lhe enchera os sonhos de esperanças, destruir o castelo das suas ilusões, amaldiçoar o seu ídolo e calcar o próprio coração debaixo dos pés, como quem esmaga um imundo verme! Mas assim era preciso! Era inevitável! O que poderia ele esperar daquela mulher, no caso que lhe faltasse coragem para repelila? Não lhe teria já porventura consagrado toda a sua existência? não havia feito, por amor de semelhante ingrata, todos os sacrifícios de sentimento e de caráter, que se podem exigir de um homem? E qual fora a paga de tudo isso? — Uma vileza, uma infâmia, a mais torpe das traições — a traição do amor!
Oh! Era indispensável fugirlhe para sempre! nunca mais a ver! nunca mais a amar!
E, com esta resolução, todo o seu ser se abalava num calafrio de morte.
Mas que diabólica fascinação exerce sobre mim aquela mulher, considerava o mísero; para que eu, mesmo no auge de meu desespero e do meu ódio, sinta por ela todo o arrebatamento do amor e toda a humilhante agonia do desejo? Que sobrenatural poder me obriga a querêla sempre, mesmo com a consciência dolorosa da sua infâmia e com a convicção degradante da minha covardia? Inferno! Conhecer o mal, sem ânimo para fugir dele!... mas não! Custe o que custar, doa o que doer, hei de esquecêla! hei de desprezála!
Mas dentro, em revolta, lhe bradava o sangue:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.