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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

O toma-largura parecia pertencer talvez à família dos Leonardos; enterneceu-se imediatamente, e não teve animo senão de sorrir-se e responder em tom desconcertado:

— Ora!...

— Ora, replicou Vidinha; e então, ele não diz-ora?-Qual! é preciso não ter pinga de vergonha: estas duas criaturas nasceram uma para a outra: Deus os fez e o diabo os ajuntou; uma toma caldo e o outro diz-ora...

E foi tomando a mantilha e tratando de sair.

Dera tudo em fogo de palha. Ela tinha esperado achar respostas enérgicas às suas invectivas, e neste pressuposto concertara mil planos de ataque, de defesa, de gritaria, de pancadas, de prisões, etc. Nada disto porém tinha sucedido, e sem saber por quê, ela mesma se sentia um pouco aliviada, quase até mesmo satisfeita. Deu mais rajadas aos dois; explicou quem era, mas não disse o que queria. Afinal, sem nada ter feito saiu dizendo:

— Ah! pensavam que a coisa havia de ficar assim? Disse-lhe poucas, porém boas...

O coração da mulher é assim; parece feito de palha, incendeia-se com facilidade, produz muita fumaça, mas em cinco minutos é tudo cinza que o mais leve sopro espalha e desvanece.

O toma-largura, apenas a viu sair, em vez de prorromper numa matinada contra sua companheira, como ela o esperava, pálida e trêmula, mostrou-se até tranqüilo, pretextou um afazer, e saiu também imediatamente. Andava-lhe na cabeça um plano cuja realização faria, como se costuma dizer, cair a sopa no mel. Vidinha tinha-o encantado; o Leonardo o havia ofendido; conquistar ainda que fosse uma diminuta parcela do amor da Vidinha, seria ao mesmo tempo vingar-se do Leonardo e alcançar o triunfo de um desejo. Por mais impossível que lhe parecesse o negócio, nem por isso esmoreceu; era tenaz e paciente.

Chegando ao portão da ucharia indagou da sentinela a direção que Vidinha tinha tomado, seguiu por ela, e em breve alcançou-a: acompanhou-a de longe para saber-lhe da morada, e viu-a entrar em casa.

CAPÍTULO XLI

REPRESÁLIAS

Quando Vidinha chegou à casa achou ainda toda a família no maior susto e confusão pelo desatino que ela acabava de praticar: as duas velhas, ao vê-la entrar, lançaram-se-lhe ao pescoço, e cobriram-na de abraços, de beijos e de lágrimas. Ela estava ainda porém sob a influência das emoções violentas por que acabava de passar, e não pôde corresponder àquelas provas de amizade; atirou-se sobre uma banquinha, e levou algum tempo calada, sem dar a menor resposta às mil perguntas que lhe eram dirigidas. Esse silêncio mais aumentava a ansiedade da família: finalmente resolveu-se ela a rompê-lo, exclamando:

— Pensavam que o caso havia de ficar assim? enganaram-se... Qual!... eu quero que fiquem sabendo para quanto presto...

— Então, rapariga, foste fazer alguma asneira...

— Asneira... qual... fiz o que faz qualquer mulher que tem sangue na guelra...

E agora venha ele para cá, que temos ainda contas a ajustar...

— É verdade, e ele que ainda não veio... já tinha tempo de chegar, pois partiu logo no vosso alcance...

— É verdade... acrescentou Vidinha com certo susto; na tal cova da ucharia não entrou ele; e quando de lá saí não o vi mais...

— Não lhe vá ter sucedido alguma coisa!... O major o jurou!...

— O major!... repetiram todas com os sinais do mais visível susto.

E levantou-se de novo em casa a confusão, porque, como os leitores terão visto, apesar dos dissabores que o Leonardo causava àquela família, todos ali, exceto os dois primos rivais, queriam-lhe muito e muito bem. Falar a qualquer dos dois primos para que o fossem procurar, era coisa de que ninguém se lembrava, tão certos estavam que eles se haviam recusar. Tiveram pois de esperar que chegasse da rua o antigo sacristão da Sé para darem as providências precisas.

Os leitores terão talvez estranhado que em tudo quanto se tem passado em casa da família, de Vidinha não tenhamos falado nesta última personagem; temo-lo feito de propósito, para dar assim a entender que em nada disso tem ele tomado parte alguma.

Causa remota e primordial de todos estes acontecimentos, pois foi em conseqüência de sua amizade que o Leonardo se juntou à família, por muito feliz se tem dado em que não tenham caído sobre ele inculpações de que com dificuldade se poderia defender; homem de tato, conservara uma posição absolutamente neutral em todas aquelas lutas. Eis aqui pois qual a causa do nosso silêncio sobre ele.



(continua...)

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