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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

E de 1814 a 1861, lá vão 47 anos em que o santo permanece no seu posto de tenente-coronel. Não sei bem quantas dúzias de ministros da Guerra temos tido durante estes nove e meio lustros. Sei, porém, que nenhum deles se lembrou de contemplar nas promoções o tenente-coronel de 1814.

Quer isto dizer que passou felizmente o tempo em que os homens, levando a sua devoção até o ridículo, amesquinhavam, sem o pensar, os escolhidos de Deus, conferindo-lhes postos e condecorações cá da Terra, e supondo talvez que dessarte os honravam muito.

Os homens sempre foram e sempre hão de ser crianças. Se os tempos passados tinham dessas puerilidades, o nosso faz-se não menos notável por outras que não ficam atrás.

Passemos da igreja à sacristia, onde teremos também alguma coisa que ver e alguma coisa que contar.

No mesmo estilo da igreja, a sacristia é, contudo, mais importante e curiosa debaixo do ponto de vista da arte. Creio que não há na cidade do Rio de Janeiro um templo cuja sacristia seja igual a esta.

O teto é coberto de painéis com molduras douradas, e reproduzindo na pintura alguns dos principais fatos da vida do santo. O chão é de mármore de diversas cores e embutido. Como as da igreja, as portadas são de mármore e as portas de jacarandá com trabalho de talha. Além do mais, e sobretudo o mais, ostenta-se o arcaz vasto e magnífico, todo de jacarandá, onde um entalhador danoso esmerou-se em fazer brilhar a sua perícia, como de igual modo se houve em um espaldar que se vê acima do arcaz, e que é daquela mesma madeira.

Cumpre notar que todas estas obras foram executadas pelos religiosos capuchos no tempo em que a sua ordem, como algumas outras monásticas, davam o exemplo do cultivo esmerado das artes liberais e contavam entre os frades não poucos arquitetos, pintores, entalhadores, músicos e artistas de todas as espécies, o que prova muito bem que estava reconhecido que o nível, o compasso, a paleta, o buril e a batuta não desonravam nem humilhavam os antigos monges, ante quem mil vezes curvavam a cabeça os príncipes da Terra.

Em um armário que existe perto daquela sacristia acham-se cuidadosamente guardadas e conservadas quatro jarras de pau com uma delicada pintura de flores, e tão bem acabado trabalho que, apesar de velhas, iludem a vista, observadas mesmo a curta distância, parecendo de fina porcelana da Índia.

Estas jarras foram devidas a uma inocente travessura de frade.

Eis aqui o caso.

Como é natural, os religiosos esmeravam-se em ornar muito a sua igreja no dia da festa de S. Antônio, e tinham já por costume mandar pedir emprestadas para esse fim umas lindíssimas jarras de porcelana da Índia que possuía um devoto freqüentador do convento.

O bom devoto emprestava as suas belas jarras com o maior prazer, e talvez até que estimasse bastante vê-las uma vez no ano figurar no altar de S. Antônio.

Durante não poucos anos, o pedido era tão certo da parte dos frades como o empréstimo da parte do devoto.

Em um ano, enfim, no dia que se seguiu ao da festa de S. Antônio, estavam na igreja o sacristão, desarmando o altar e um religioso, frei Francisco Solano, conversando com ele.

– Agora, cuidado com as jarras do devoto – disse o sacristão,tirando-as do altar com toda a delicadeza que pode.

– Com efeito – observou frei Solano. Seria uma infelicidade,se uma dessas jarras se quebrasse.

– Certamente. Porque não há outras tão lindas e tão ricas nacidade, e não poderíamos haver por preço algum uma ou duas, iguais ou semelhantes, para restituir ao dono.

– Pois é preciso não pedi-las emprestadas outra vez.

– Sim... mas...

– Quando têm de ser entregues estas jarras? – perguntou freiSolano, considerando-as atentamente.

– Hoje mesmo.

– Mas eu preciso que elas me sejam confiadas por quatro oucinco dias.

– Para quê?

– É um segredo meu.

O sacristão conveio no pedido de frei Solano; e este, levando para a sua cela as quatro jarras, tirou-lhes escrupulosamente o molde, e com o mesmo escrúpulo, copiou a pintura que as ornava.

No dia da festa de S. Antônio, do ano seguinte, o constante devoto vinha subindo a ladeira do convento um pouco admirado de não lhe terem sido pedidas as suas jarras, como nos anos anteriores.

– Desconfiariam os frades da minha boa vontade? – perguntava ele a si mesmo. Já teriam comprado jarras tão bonitas como as minhas?

Assim refletindo, chegou o devoto ao adro e entrou na igreja, e depois de fazer a sua oração, adiantou-se para a Capela-Mor, pôs os olhos no altar e recuou dois passos, exclamando:

– As minhas jarras!

Tornou a olhar, aproximou-se mais do altar, observou com todo o cuidado e repetiu:

– São as minhas jarras!

Mas o devoto tinha a certeza de não as haver emprestado, e confundido, portanto, com o que via, saiu da igreja, correu a casa, foi direito a um armário onde guardava as suas jarras e viu-as, com espanto, no seu lugar.

(continua...)

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