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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Depois da impressão terrivel que produzira em Juliana a noticia do proximo casamento de Jorge de Almeida, e a demonstração de falsidade das cartas que este apresentara em nome de seu pai, a moça concebera uma duvida consoladora, e abraçára-se com a idéa de que Fábio, inspirado por um vil e indigno ciúme, procurava enganala.

Em breve porém teve Juliana de reconhecer que fazia uma nova injustiça ao seu pobre mas honesto e extremoso amante,

Jorge de Almeida appareceu aos olhos da sua noiva, e delia ouvindo tristissimas queixas de mistura com a relação da sua perfídia e do seu crime, jurou que era victima de uma negra calumnia, e sahio precipitado, asseverando que voltaria antes de duas horas com as provas irrecusaveis de sua innocencia.

E, Juliana esperou duas horas, e depois dous dias inteiros inutilmente, porque Jorge de Almeida não voltou mais, e só em logar delle chegou no terceiro dia o desengano.

Jorge de Almeida escreveu uma carta a Cândida, mostrando-se resentido das suspeitas injuriosas de Juliana, e retirando por isso a palavra de casamento que lhe tinha dado.

O seductor não ousou escrever uma unica palavra a sua victima.

A despedida e desenganos erão feitos com selvatica rudeza; mostravão-se porém dignos da moralidade do algoz.

Cândida, acabando de ter a insolente carta, levantou colerica os olhos para o céo e imprecou vingança.

Juliana, que ouvira a leitura daquella horrivel

sentença que a condemnava, curvou a cabeça, e embebeu os seus olhos na terra, como se quizesse esconder á sua vergonha.

— Levanta a cabeça, minha filha, disse emfim Cândida, concentrando a sua cólera; anima-te, consola-te : esse miseravel não te merecia : levanta a cabeça!

Juliana ergueu a fronte, e olhou tristemente para sua mãi, sem lhe dizer palavra; mas sua consciência lhe estava respondendo que não podia mais levantar a cabeça diante de Jorge de Almeida.

XXIII.

O projecto de casamento de Jorge de Almeida com a bella Juliana fora por alguns amigos sabido ; a noticia do triste desenlace da intriga infame forjada por um vil seductor correu logo de bocca em bocca, soffrendo muito por isso a reputação da victima.

As murmurações e as injurias levantadas pelas mais terríveis suspeitas marcavão já com o sello da reprovação a infeliz moça.

Cândida e Fábio comprehendêrão que era indispensavel que Juliana tornasse a apparecer nas sociedades e que assoberbasse a horrivel tormenta que contra ella se desfechava.

A situação era realmente tão dolorosa e difficil como positiva e irrecusavel.

Voltando ás assembléas que costumava frequentar, Juliana protestava ao menos com a sua presença e com a sua placidez contra as indignidades que a seu respeito erão espalhadas, e, no caso contrario, fugindo ao mundo elegante

e ás festas, e escondendo-se em um retiro, procurando um esquecimento que não estava nos seus habitos, deixava em pé e vigorando as suspeitas que lhe despedaçavão a coroa e o véo branco da pureza.

Juliana attendeu aos conselhos de Fábio e de sua mãi, e voltando aos bailes, ás festas e aos theatros, abraçou-se com a mentira.

Com a mentira, sim ; porque erão mentiras o brilho do seus olhos, o sorriso dos seus labios, a alegria do seu rosto e o encanto da sua conversação.

A verdade guardava-a ella no seio : a verdade era o arrependimento, era o remorso.

A mentira acompanhava-a ás sociedades, aos passeios, aos saráos, aos theatros : a verdade, que aliás não a deixava nunca, erguia-se terrivel no silencio da noite e na solidão do seu quarto ; erguia-se, e abrazava-lhe a face e os labios, lembrando-lhe beijos impuros ; erguia-se, e cantava-lhe aos ouvidos horas inteiras, e incessante e desesperadamente aquelle canto sinistro que marcara o momento da sua perda e do seu opprobrio.

E Juliana, que tinha horror a essas noites de indizivel martyrio, ainda mais se arreceiava de que viesse alguma vez sua mãi observal-a, temendo que por acaso então adormecida revelasse em um sonho traidor o segredo fatal da sua vergonha.

A misera jovem, que em horas de imprudencia e de loucura tinha calado aos pés os preceitos do dever e da virtude, já estava pois sendo severamente castigada.

Recebia um castigo, nas justas murmurações de um mundo sempre desapiedado da mulher que se avilta.

Recebia outro castigo nesse desassocego e medo que incessantemente sentia.

E mais que tudo a consciência, que é como um écho da voz de Deus, a castigava com as torturas horriveis do remorso.

XXIV.

O caracter de Juliana era capaz de emprestarlhe a audacia necessária para resistir á silenciosa, mas palpitante reprovação com que ella era recebida nas reuniões em que se apresentava.

Sua vaidade dava-lhe forças para impôr-se.

Quando ás vezes via suas rivaes sorrirem maliciosamente olhando para ella, encarava-as atrevidamente, ou dardejava sobre as inimigas um olhar de fingido desprezo, que chegava a confundil-as.

(continua...)

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