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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

Mais de um ano, depois que a abandonara o Ribeiro, teve Besita uma filha, cujo nascimento foi inteiramente ignorado em Santa Bárbara, pelo isolamento a que se condenara a moça desde a morte do pai. Só o soube, fora Zana, Jão Bugre, cuja dedicação apurava-se com o infortúnio daquela por quem sacrificaria a vida, se pudesse por este preço resgata-la aos dissabores. 

  Um dias às ocultas, levou o capanga nos braços a criancinha a Campinas, a fim de a batizar o vigário dessa vila, pondo-lhe o nome de Berta, que tinha sua mãe. Havia ajuntamento na igreja para assistir a um casamento: era o de Luís Galvão com D. Ermelinda. 

Custou ao Bugre conter-se, que no seu exaspero não insultasse ali em face de toda gente aquele homem de quem fora amigo, e por quem tinha agora a maior aversão. Reprimiulhe o primeiro ímpeto a lembrança de Besita e da mágoa que lhe podia causar o escândalo. 

  Voltou sombrio e sinistro: 

- É preciso que eu mate esse homem! disse ele à moça entregando-lhe o filho. 

- Não quero que lhe faças o menor mal! respondeu Besita com império.  

- Mecê sofreria se eu o matasse? 

- Muito!... 

- Basta, Nhazinha! atalhou Jão. 

  Algum tempo viveu Besita com sua filhinha no mesmo isolamento sem outra companhia além de Zana, que lhe dera de mamar, e o capanga, o qual a servia como um escravo humilde e fiel da casa. Convencida de que realmente seu marido a abandonara de vez, habituara-se com o correr do tempo à placidez e serenidade daquela existência recôndita, que embeleciam as efusões do amor materno. No seio dessa tranqüila solidão, cercada de afeições sinceras, sentia-se quase feliz. 

  Seu prazer, nos momentos que lhe deixava a criação, era enfeitar a filha, e fazer bonito o seu Bebê, arranjando-lhe ora toucas de rendas, ora roupas. Lembrou-se um dia de bordar-lhe um cinto com signo-saimão, zodíacos, figas e outras figurinhas de prata, como se usava então para livrar do quebranto. 

  Não havendo por perto ourives capaz de lavrar os emblemas, mandou Besita o Bugre a Itu, a fim de os encomendar. Com repugnância, e um inexplicável constrangimento, ausentou-se Jão por alguns dias dessa casa onde vivia quanto amava neste mundo e sobre a qual velava como um cão fiel e dedicado. 

  Foi isto em uma terça-feira. Na quinta seriam oito horas da manhã, e Besita fazia saltar sobre os joelhos o seu lindo Bebê, sentada na alcova, com uma rótula aberta a meio. Eis que derramando a vista pelo arvoredo, ficou transida, como se lhe surgisse em face um espectro. 

  Enxergara o rosto de Ribeiro, que se ocultou entre a folhagem. Seria apenas uma alucinação de seu espírito, ou a tremenda realidade, cuja idéia tantas vezes a enchera de terror, nas longas noites não dormidas? 

  A tremer chamou a preta, que estava na cozinha cuidando do almoço: 

  - Meu marido, Zana!... 

  Aterrou-se a ama, ouvindo da senhora os pormenores da aparição, que anunciava tamanhas desgraças; e esteve algum tempo a espiar por entre a rótula a ver se lobrigava ainda o vulto do Ribeiro, mas nada viu. 

  Acudiu-lhe então uma lembrança engenhosa, com a qual esperou e por entre a rótula quase cerrada, não podia o Ribeiro distinguir o semblante da criança. Tomou-a Zana dos braços desfalecidos da senhora, e levando-a a seu cubículo, tisnou-lhe o corpo de carvão. 

Feito isto arranjou outra vez as fraldas e a touca; e saiu ao terreiro para acalentar a criança, andando de uma para outra banda, e entoando a costumada cantiga, mas então alterada por esta forma: 

 

Cala a boca, anda, negrinha, 

Ai-uê-lêlê! 

Senão olha canhambola, 

Ai-uê-lêlê! 

Vem cá mesmo Pai Surrão  

Toma, papa este tição. 

 

  Compreendeu Besita o ardil da preta, e no desamparo em que se achava, confiou nessa frágil esperança. 

  Passou o resto da manhã sem o menor acidente. Assim desvaneceu-se o primeiro sobressalto, e a moça inclinada a crer que apenas fora vítima de uma ilusão cruel, cobrou ânimo, embora não se pudesse esquivar à inquietação que lhe deixara o terrível susto. 

(continua...)

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