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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Receando, pois, que a partida de prazer tão aprazivelmente começada, fosse interrompida por um desagradável conflito, o ajudante aproveitou-se do primeiro pretêsto para desviar da disputa a atenção do potentado: 

— Lá está o Dourado! exclamou com grande alardo, apontando para a várzea. Senhores, o Dourado!… 

O capitão-mór adiantou-se para ver o famoso corredor. D. Genoveva e as moças aproximaram-se com viva curiosidade. Marcos Fragoso, Ourém e o capelão que falavam com as senhoras justamente acêrca do herói, acompanharam o seu movimento. 

Agrela tinha apontado a esmo para um boi, cuja côr pudesse até certo ponto desculpar o engano. Mas o acaso incumbira-se de tornar certo o seu dito; pois precisamente naquela ocasião, o rei dos pastos de Quixeramobim, assomava no descampado. 

Era um boi alto e esguio. Seu pêlo isabel na côr, longo, fino e sedoso, brilhava aos raios do sol com uns reflexos luzentes, que justificavam o nome dado pelos vaqueiros ao lindo touro. Em vez das largas patas e grossos artelhos dos animais de trabalho, êle tinha as pernas delgadas e o jarrête nervoso dos grandes corredores. 

Os chifres não se abriam para diante em vasta curva, mas ao contrário erguiam-se quase retos na fronte como dardos agudos e à semelhança da armação do veado. Esta particularidade indicava que o barbatão não se criara nas várzeas, mas que desde garrote se acostumara a bater as brenhas mais espêssas e a atravessar os bamburrais emaranhados. 

Azara refere ter visto no Paraguai muitos exemplares desta espécie de chifres verticais e direitos, a que alí dão o nome de chivos. 

O Dourado trazido pelos fábricas de José Bernardo, havia parado no meio da várzea. Em sua atitude garbosa, reconhecia-se a altivez do touro bravio, filho indômito do sertão, nascido e criado à lei da natureza. Tinha êle a majestade selvagem das feras, que percorrem livres o deserto e não reconhecem o despotismo do homem. 

Com o pescoço curvo e a fronte alçada, o touro lançava aos cavaleiros um olhar de desafio, batendo o costado com a ponta da cauda arqueada, e escarvando o chão de leve com a unha direita. Um borborinho surdo ressoava no vasto peito, que sublevava-se para soltar o mugido. 

Todavia não se notava neste aspecto a sanha terrível do touro sanguinário, que arroja-se ao combate cego de furor, e dilacera a vítima com as pontas aceradas, ou vai cair aos pés do inimigo exhausto pelos ímpetos violentos. 

O Dourado tinha a coragem calma, êle conhecia o homem, e estava habituado a afrontá-lo. No olhar com que observava os cavaleiros, descobria-se unida à segurança do corredor, que não teme ser vencido, a sagacidade do boi manhoso e experiente que calcula o perigo, e sabe acautelarse. 

— Então é aquele o vitelo de ouro, reverendo? disse Ourém, voltando-se para o capelão. Vitulus conflatilis! 

— Neste caso, senhor licenciado, replicou Padre Teles, é preciso seguir o exemplo de Moisés, que o queimou, reduziu a pó, dissolveu em água e o deu a beber aos filhos de Israel; combussit et contrivit usque ad pulvere, quem sparsit in aquam et dedit in eo potum filii Israel. 

Êxodo, cap. 32, versete 20. 

— Em o nosso caso não acha, reverendo padre Teles, que bastaria assá-lo para o almôço? 

— É o que eu estava pensando, sr. licenciado; e creio que o consumiríamos melhor assim ou numa boa açorda do que pelo processo de Moisés. 

Enquanto o licenciado e o capelão faziam êstes gastos de erudição bíblica, as outras pessoas trocavam suas observações acêrca do Dourado. 

D. Flor também contemplara o animal com satisfação, pois tinha seu instinto de sertaneja, filha daqueles campos e neles criada. Além disso possuia o sentimento do belo, e sabia admirá-lo em todas as suas formas. 

— O Dourado há de ter o meu ferro! exclamou com um arzinho de princesa que lhe assentava às maravilhas. 

— Se levar algum, com certeza não será outro senão o seu, Flor; disse o capitão-mór. 

A donzela soltando a exclamação a que o pai acabava de responder, insensivelmente volvera o olhar e encontrou Arnaldo que pouco antes se aproximara do grupo. Ao tôrvo e sombrio aspecto do mancebo, e talvez à lembrança do que acontecera com a flor, desviou a vista rapidamente. 

— Então, senhores, vamos ao Dourado? disse o capitão Marcos Fragoso.

— Ao Dourado! exclamou Daniel Ferro. 

— É à-toa, só para correr, ponderou o capitão-mór. O Dourado, não há quem lhe deite a unha; dos que estão aquí, não desfazendo em ninguém, só vejo o Arnaldo, nosso vaqueiro, filho do Louredo, mas quando tiver a experiência do pai. 

— Não conheço, disse Marcos Fragoso desdenhosamente. 

O capitão-mór acenou para Arnaldo. 

— Vem cá, rapaz. Aquí está: basta olhar, para ver o filho de quem é. 

(continua...)

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