Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Se há um muro de bronze, o homem trabalha uma vida inteira para lançá-lo por terra.
E nem os anos, e nem a ausência podem fazer esquecer a mulher que se ama.
Porque não houve gozo.
E pode a mulher ser caprichosa e ligeira; pode zombar, pode parecer inconstante, pode desdenhar, podem mesmo asseverar que ela é falsa; o homem estará preso a seus pés como um mísero escravo.
Porque não houve gozo.
É, com isto, e mercê destas considerações mil vezes já enunciadas de modo mil vezes melhor, que se explicava o amor extremoso e irresistível de que o jovem Henrique se achava possuído pela filha de Anacleto.
Henrique era um exemplo que se podia dar dos dois sentimentos que acabam de ser discutidos.
Laços de uma pura e virginal amizade o ligaram a Carlos. Grilhões de um amor tirânico e invencível o prendiam aos pés de Mariana.
A amizade porém dos dois mancebos era mais velha que o amor de um deles; e Carlos, com o zelo de um amigo fiel, tinha acompanhado todo o correr desse amor, que durante muito tempo se lhe figurou em abismo.
Com franqueza a lealdade combatera esse sentimento de Henrique durante seus primeiros tempos; apoiara sua viagem à Europa, e, apesar de ler o nome de Mariana em todas as cartas de seu amigo, só começara a falar dela nas suas quando começara também a viuvez da filha de Anacleto.
Depois da volta de Henrique à pátria, acompanhava-o ao “Céu cor-de-rosa”, e observava...
Os dois amigos estavam juntos na manhã que se seguia depois da noite dos anos de Celina.
Henrique achava-se pensativo e profundamente melancólico.
– Previ que estimarias ver-me hoje cedo, disse Carlos.
– Estimo ver-te sempre; que quer porém dizer a tua previsão?
– Adivinhei que estarias pensativo e triste.
– Então adivinhaste também o motivo?
– Também.
Henrique corou sem querer; ensaiou um sorriso, e perguntou:
– E qual é?...
– Sou teu médico, Henrique, e vi que a noite de ontem deveria fazer-te mal.
– E fez-me.
– Portanto, fiz bem em vir conversar contigo: necessáriamente tens muito que dizer-me.
– Não; tenho ao contrário alguma coisa que perguntar.
– Vamos, pois.
– Que observaste ontem à noite, Carlos?
– Provavelmente menos do que tu, Henrique.
– Menos do que eu?...
– Sim; porque eu examinei tudo com o olhar frio do observador, e tu viste tudo com os olhos enganadores da paixão.
– E então?...
– Então tu deixaste ontem o “Céu cor-de-rosa” com a convicção terrível de que tinhas um rival poderoso no jovem Salustiano.
– E tu?...
– E eu vim com a certeza de que a bela viúva detesta esse homem mais do que tu mesmo.
– É possível?!
– Mas eu trouxe também a certeza de que entre ela e Salustiano existe um segredo, que é uma barreira que se levanta contra o teu amor.
– Oh!... mas esse fatal segredo...
– É um segredo... não o saberás... não o saberemos.
– Mas eu daria meu sangue... metade de minha vida para poder arrasá-lo.
– E nunca o saberás.
Henrique torceu as mãos com violência, e depois exclamou com acento de dor profunda:
– Que eu não possa esquecer essa mulher!
E começou a passear por toda a extensão da sala visivelmente alterado.
Carlos acompanhava-o em silêncio e com os braços cruzados, até que enfim Henrique principiou a desabafar seus sofrimentos, falando.
– É incrível! exclamou ele: como se pode explicar este sentimento que tem
feito o constante padecer de minha vida?... como é que pode em mim tanto essa mulher, que nem a razão, nem a ausência, nem a amizade poderão conseguir fazerme esquecê-la?... como é que eu me prendo assim a uma rosa que me espinha; que me ofereço a um raio que me abrasa?! Oh! Carlos! Carlos! este amor é fatal como a maldição de um pai!...
– Eu to predisse: no seu começo fora possível vencê-lo; agora é tarde.
– Possível vencê-lo?! se não foras meu amigo, eu te desejaria um amor como este, para sentires como foi ele no seu começo; sabes o que é estar um homem devorado pela sede, e preso a uma coluna de ferro a dois passos de um rio de águas límpidas?... pois foi assim que eu vivi enquanto Mariana esteve casada; a minha sede era de amor, minha coluna de ferro era a honra, e essa mulher era para mim uma fonte de angélica pureza... oh!... foi muito horrível a minha vida!... foi muito horrível!
Carlos guardou silêncio.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.