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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Que te perseguiram, não é assim?...

— É que eu sou bem infeliz, Raquel; não bastava Otávio, que me diz tantas coisas; que me obriga a ouvi-las; que se enche de esperanças, que eu não alimento!... eram precisos ainda mais dois que me atormentassem todo o dia com suas loucas palavras e ridículas ações!... — E que remédio tem uma mulher, senão às vezes deixar-se requestar por tolos?... quem diz tolo, diz vaidoso.

— Oh! mas é necessário ter ou vaidade de mais, ou então um espírito muito miserável, para que eles não compreendam que eu desprezo formalmente seus obséquios!

— Porém, quem te manda desprezá-los?... pelo menos podias animar o velho... um velho namorado, Honorina, serve muito para a gente rir-se...

— É... que... eu não posso rir-me!...

— Por que, Honorina?...

— Raquel!... exclamou a moça, escondendo por instantes o rosto no seio da sua amiga.

— Fala, Honorina; desafoga-te comigo.

Passou-se ainda um momento de silêncio, em que o rosto de Honorina se foi tornando corde-rosa; depois ela falou:

— Raquel!... Raquel!... tu não sabes o que se tem passado comigo desde aquela fatal noite, em que conversamos, ambas encostadas nessa janela; lembras-te daquele papel, que achamos e lemos na manhã do dia seguinte?...

— Lembra-me... sim.

— Pois eu tenho involuntariamente recebido outros da mesma natureza, que trazem todas essas palavras que eu pronunciei, falando-te de amor, escritas... repetidas, como a divisa de um cavalheiro, ou como o estribilho de um hino de triunfo...

— E o homem que as escreve?...

— Oh!... esse homem?... eu o tenho visto... eu o tenho ouvido... e eu não te posso dizer ao certo qual é o seu verdadeiro rosto, nem qual é o som de sua voz!...

— Mas o que tu dizes, Honorina, é ainda bem ininteligível!...

— E, todavia, é a própria verdade; o homem que me escreve é um ente que muda de aspecto, de voz, de vestidos, de condição, de ofício e de tudo, segundo as circunstâncias em que me quer aparecer.

Raquel chegou-se para mais perto de Honorina, como não querendo perder uma só palavra do que lhe ia dizer a amiga.

— Lembras-te que te mandei pedir, continuou Honorina, que me enviasses um cabeleireiro para me toucar no dia do sarau de D. Tomásia?... tu me tinhas respondido que às cinco horas da tarde o cabeleireiro se me apresentaria...

— E então?...

— Pouco depois das quatro aparece aqui um homem para pentear-me; um homem que não dizia uma só palavra, vestido de mil cores, com o rosto muito vermelho, com os cabelos ruivos, um homem que beijou minhas madeixas, que roubou-me um anel delas, e que inopinadamente deixou-me ainda destoucada; Raquel... era ele!...

— Mas o cabeleireiro que eu te mandei?...

— Chegou depois; exatamente às cinco horas da tarde. Ouve mais: de volta do sarau, somos trazidas aqui por um jovem marinheiro, rude, grosseiro... malvestido... com cabelos pretos tão longos como hirtos; no meio da viagem, enquanto meu pai dormia, e eu receosa dele fingia dormir, apanha uma de minhas luvas, que o vento levantara, beija-a, guarda-a junto do coração... e ao chegar à praia, vendo que eu buscava a minha luva, ma entrega, tendo posto dentro dela um papel; Raquel... era ele!...

— E esse papel, Honorina?

— Estavam nele escritas as palavras fatais... o meu imprudente pensamento sobre o amor... aquilo que eu te disse, Raquel, pensando que ninguém mais me ouvia!...

— E depois?

— Tu te recordas, Raquel, daquele jovem loiro que no sarau de D. Tomásia sentou-se no terrado defronte de nós?... Raquel! Raquel! tu te recordas de seu sonho?... tu te lembras o que ele disse sobre uma sempre-viva?...

— Oh!... muito!... muito, Honorina!... eu me lembro muito!

— Pois bem... eu não pude dormir... a imagem desse moço esteve sempre diante de meus olhos! eu passei o resto da noite febril... ardente... desassossegada!... eu comparava o amor desse moço tão singular, mas tão respeitoso, que ele temia fazer corar de pejo o objeto de seus cuidados, com esse amor misterioso... noturno... e talvez terrível do homem que me persegue!... eu comparava aquele rosto melancólico e doce... aqueles belos cabelos loiros com o semblante vermelho ou agreste, com os cabelos ruivos ou pretos que no outro tinha visto!... comparava sua voz branda e comovida com a voz áspera, grossa e desagradável do bateleiro... ah! tudo isso era um paralelo cruel para o desconhecido que me amava!... Agitada... com a cabeça em fogo... aflita enfim, eu me ergui, à primeira luz do dia... abri aquela janela... levantei a vidraça... Raquel!... eu achei aí um papel, e sobre ele a sempre-viva!... a sempre-viva!...

— E o papel?... o que dizia o papel?... perguntou Raquel violentamente comovida. — Lê tu mesma, disse Honorina, mostrando-lhe um breve escrito, que desde que se fora sentar tinha fechado em uma mão.

(continua...)

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