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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

pesadelo. Quase sempre as crônicas literárias, as fantasias, as noticias de teatro, as trazia escritas de casa; mas o serviço normal, era obrigado a fazê-lo na própria redação. Preferia ficar só, e quando estava, escrevia para adiantar serviço. A sua oclusão mental não fora capaz de me julgar e ele não me supunha bastante atilado para observar a sua dificuldade. Então, mesmo na minha presença, mordiscava os bigodes, dava suspiros, falava alto; mas ao chegar um outro dos colegas, continha-se, procurava diminuir a contração dos supercílios e o franzir da testa que lhe denunciavam o desespero e o esforço. Floc não tinha o dom de improvisar o artigo, não possuía esse talento especial de presteza de pensamento, essa facilidade em vazá-lo logo no papel, com que se fizeram conhecidos José do Patrocínio e Justiniano José da Rocha. Na redação, havia alguns que escreviam com facilidade e rapidez, mas sem brilho nem relevo. Meneses era quem tinha mais destaque, quem mais força possuía no dizer, mas a sua pessoa resistia muito, não se queria transmitir ao artigo, temia, e por isso ele perdia muito.

Quem tivesse perfeitamente o dom de inventar, de arquitetar instantaneamente o artigo e escrevê-lo com sabor literário, movimento brilhante, vigoroso, orgânico, não havia. Losque, muito mais fraco do que Meneses, fingia-se de posse desse dom sagrado. Faltava-lhe novidade, invenção, força no dizer; tinha uns certos períodos, um constante arranjo de frases que ele adaptava ao assunto do momento, com as variantes necessárias. Gregoróvitch escrevia rapidamente, desenvolvia o artigo com muita força e paixão, mas era tumultuário até ao emaranhado e a falta de sentimento da língua não lhe dava uma arquitetura aos períodos. A música do idioma fazia-lhe falta, completamente. No mais, todos escreviam com acanhamento, sem naturalidade; as palavras fugiam-lhes no momento de escrever. Isso que num temperamento literário pode transformá-lo em grande escritor, num jornalista a nada leva. Aliás, nenhum deles tinha o sentimento do seu defeito. Floc unicamente, com certeza devido aos seus grandes desejos literários e artísticos, sentia bem essa inferioridade e sofria com ela. Não procurava corrigir-se, adquirir a plasticidade necessária; o oficio não permitia e fora dele não tentava nada, com medo do desastre e do insucesso, embora na tentativa muito pudesse ganhar a sua vontade e o escritor que houvesse nele. Sofria...

Nos dias seguintes às festas de luxo, quando era encarregado dos comptes-rendus, era de ver o seu azedume contra o Raul Gusmão, que os fazia também para o Despacho. Em geral saiam antes dos seus, à tarde, de modo que ele chegava à redação notando-lhe as invenções e os exageros. Sempre, porém, senti na sua critica a impotência e o despeito de não ver citada pelas senhoras conhecidas uma imagem mais faiscante, como faziam com as do rival. Entretanto, eram amigos e elogiavam-se sempre que podiam.

Floc, naquele momento, recebera uma aragem de inspiração. Escrevia com desembaraço, quando Losque entrou. O recém-vindo descansou o maço de jornais que sempre trazia, limpou o pince-nez, acendeu o cigarro de palha e perguntou camaradariamente:

— Que escreves?

— A notícia do baile do palácio...

— E o Rolim?

— É a “cabeça”... Tu bem sabes que o Rolim não escreve nada que preste...

Este Rolim era o repórter do palácio. Tinha mais de quarenta anos, uns grandes pés espalmados e o queixo erguido para o alto quase a bater nos bigodes fartos e negros. Tinha-se na conta de elegante, de fino e descendente de um vice-rei do Brasil, Dom Antônio Rolim de Moura, Conde de Azambuja. De uns tempos a esta parte, todos os brasileiros se vão enobrecendo ao acaso... Devem ter verificado isso.

O seu ofício no jornal era ir diariamente ao palácio presidencial, tomar conta dos nomes dos visitantes, ou, em ocasiões excepcionais, representar o jornal nas festas do bom-tom, em que a distinção de maneiras fosse exigida e um ar sedutor não ficasse mal. De volta, trazia os nomes dos circunstantes, a hora certa em que começaram as danças, procurava a notícia anterior e mutatis mutandis a copiava.

— Este Rolim!... É jornalista para uso externo, disse Losque acrescentando em seguida: Você leu o Jornal do Comércio?

— Não. Por quê?

— O Teixeira Mendes ataca a lei dos sapatos obrigatórios. Diz que isso de andar calçado, de correção de traje, em última análise, entra no campo da estética, assim no espiritual em que não pode o poder temporal intervir absolutamente... Então é com o papa?

Os dois sorriram e Floc refletiu vagarosamente:

— Eu creio que as coisas vão mal. Há muita irritação, muito azedume por aí...

— Eu penso também que isso não acaba bem. Hoje quando vinha de bonde, vi comentários ao artigo do Ricardo...

— Estava bom. Não achaste?

— Achei, fez o outro com segurança. Ele atacou bem a questão; podia ir mesmo pelo lado higiênico...

Entrava no momento Leiva, que fazia polícia e “Vida Operária”. Sentindo que se falava na questão dos sapatos, interveio na palestra:

— Vocês não imaginam... As coisas estão feias! Estive na Gamboa e na Saúde... Os estivadores dizem que não se calçam nem a ponta de espada. Não falam noutra coisa. Vi um carroceiro dizer para outro que lhe ia na frente guiando pachorrentamente: Olá hé! Estás bom para andares calçado que nem um doutor! Por aí vocês avaliam... Creio que há “turumbamba”!

— Agora, aqui para nós, aduzia Floc, a coisa é necessária... Causa má impressão ver essa gente descalça... Isso só nos países atrasados! Eu nunca vi isso na Europa...

— Ora, deixa-te disso, Floc! observou Gregoróvitch que entrara. No Norte, é justo, o clima, o gelo; mas no Sul, em Nápoles, na Grécia, vê-se muito...

— Isso não é Europa.

— Engraçado! Com que liberdade modificas a geografia... E em Londres?

— Que tem Londres?

(continua...)

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